Etiqueta dos bailes na Era Vitoriana


“Too Early”, James Tissot (1873)

Um dos principais eventos sociais da Era Vitoriana (1837-1901) eram os bailes e, como vários outros aspectos da vida naquela época, eles eram cheios de regras de etiqueta. Mais do que apenas uma ocasião para dançar, os bailes eram uma oportunidade de se mostrar, de ampliar o círculo social e flertar. Também eram uma espécie de vitrine dos bons costumes: durante os bailes,os presentes demonstravam seu bom gosto e riqueza através da roupa, da habilidade de dançar e conversar e dos modos durante a ceia – uma refeição que era servida durante um intervalo do baile para recuperar os bailarinos.

 CHEGANDO NO SALÃO

Uma dama de respeito não deveria chegar desacompanhada ao salão de baile. Ela sempre chegaria na companhia de um cavalheiro ou de uma aia, que poderia ser uma parenta mais velha e respeitável.

O cavalheiro, por outro lado, poderia comparecer sem uma dama. Mas, caso estivesse acompanhado, imediatamente após chegar deveria levar a dama até onde ela pudesse se sentar. Depois buscaria um cartão de baile para sua acompanhante e poderia então apresentá-la a seus amigos e conhecidos, que poderiam pedir uma das várias danças com a dama.

 

OS CARTÕES DE BAILE

O cartão de baile ou cartão de dança era onde a dama anotava os nomes de cada cavalheiro com quem dançasse ao longo da noite, ao lado do nome da dança dividida com ele. O cartão podia ficar preso ao pulso da mulher com um cordão ou fita ou ser colocado no leque.

Os cartões de baile continham todo o programa que danças que seriam executadas durante a noite e espaço para danças extras – que poderiam ser pedidos especiais dos participantes.

O INÍCIO DO BAILE

Uma vez que os organizadores do baile davam a ordem para que a orquestra começasse a tocar, eles próprios eram os primeiros a pisar no salão. O início do baile era anunciado pelo toque de uma corneta ou pelas batidas do mestre de danças, caso houvesse um.

Para a primeira dança, o cavalheiro que houvesse trazido acompanhante deveria necessariamente dançar com ela. Na segunda dança, porém, deveriam se separar, pois não era bem visto que um par dançasse muitas vezes junto. Além disso, era dever dos cavalheiros garantir que nenhuma dama retornasse ao lar sem dançar ao menos uma vez -à exceção das aias, das senhoras mais velhas e das viúvas ainda de luto.

Caso não houvesse pares do sexo oposto em número suficiente, tanto damas quanto cavalheiros podiam dançar entre si.

A esposa e o marido não deveriam dançar juntos, pois isso era considerado uma grave falta de educação. Os noivos, por sua vez, deveriam evitar dançar juntos e, se o fizessem, não poderiam manter muita proximidade entre os corpos.

 

CONVIDANDO UMA DAMA PARA DANÇAR

Uma dama de respeito jamais tomaria a iniciativa da dança, pois esta era uma prerrogativa dos cavalheiros. Quando convidada para dançar, a dama não podia recusar, a menos que em seu cartão de dança já houvesse um nome para aquela dança ou se não tivesse sido apropriadamente apresentada ao homem.

Antes de convidar uma dama, o cavalheiro precisava primeiramente ser apresentado a ela por um amigo em comum. Feita a apresentação, ele deveria tomar muito cuidado com seus modos na hora de convidá-la. A etiqueta exigia que ele mantivesse uma distância respeitosa, curvando o tronco levemente e com muita elegância enquanto estendia a mão direita para a dama e falava “Daria-me a honra de uma dança?”, “Seria um prazer bailar com vossa senhoria” ou “Concederia-me sua mão para a próxima dança?”. O cavalheiro deveria permanecer nessa posição até que a dama respondesse. Ele então escreveria seu nome no cartão de baile dela, fazia uma reverência respeitosa e se retirava.

 

DURANTE A DANÇA

Quando o cavalheiro estava dançando com uma dama à qual acabara de ser apresentado, deveria ser cuidadoso ao conversar com ela. Terminada a música, ele fazia um reverência de leve, apresentava seu braço direito e a conduzia de volta à sua cadeira; se o assento estivesse ocupado, ele perguntava a qual lugar do salão ela gostaria de ser conduzida. Uma vez que a dama estivesse sentada, o cavalheiro deveria fazer outra reverência e se retirar, pois não podia tomar a liberdade de sentar ao lado dela a menos que fossem íntimos. A dama deveria responder à reverência apenas com um leve aceno de cabeça.

Embora se esperasse que o cavalheiro “puxasse papo” com a dama, a conversa deveria ser breve. Conversar demais durante a dança, especialmente próximo ao ouvido, era considerado de muito mau gosto. As risadas altas, os olhares frequentes (“encaradas”) ou uma conversa alta eram faltas graves no salão de baile.

Se a dama se sentisse cansada, poderia pedir ao cavalheiro para retornar ao seu lugar a qualquer momento.

 

SAINDO DO BAILE

Recomendava-se que os convidados saíssem do baile sem incomodar os anfitriões. Deveriam sair em silêncio, sem despedidas, e na semana seguinte enviar um cartão ou fazer uma visita de agradecimento. Se fosse uma festa privada, com poucos participantes, uma despedida breve poderia ser feita.

As mulheres, solteira ou casadas, não podiam partir sozinhas ou poderiam dar espaço para comentários maldosos.

O fato de um cavalheiro e uma dama terem sido apresentados em um baile não significava que poderiam iniciar uma amizade. Para que isso acontecesse, os dois precisariam ser apresentados formalmente em outra ocasião.


 

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About D. Joaquina Brião

"A boa educação é resultado do bom senso, do bom caráter e da abnegação em favor do seu semelhante." (Barão de Chesterfield) Uma mulher bem-nascida e bem-criada, com uma posição de respeito dentre os desterrenses. Sua interlocutora junto aos usos e costumes do Oitocento e da vida em Desterro naquele século.

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