[Ebook Grátis] Ensinando História a partir de objetos


Recentemente comecei a fazer um curso oferecido pelo Instituto Smithsonian, através da plataforma EDX, intitulado “Teaching Historical Inquiry with Objects” (algo como “Ensinando pesquisa histórica com objetos, numa tradução bem livre). Sendo um curso feito basicamente por professores do arco de Estudos Sociais (História, Geografia e algumas disciplinas que trabalham noções de cidadania e vida em sociedade) oriundos de países de língua inglesa, as atividades de fórum têm sido uma grande oportunidade de conhecer a realidade pedagógica de outros países e perceber que há muitos anseios e preocupações comuns, mas também muitas diferenças. E a percepção das diferenças nada tem a ver com o complexo de vira-lata sobre o qual se fala tanto ultimamente: tem sido muito construtivo observar as diferentes abordagens que se dá aos Estudos Sociais no mundo anglo-saxônico. Ao mesmo tempo em que questiono certos posicionamentos teóricos, estou travando contato com novas abordagens e métodos de ensino de História, principalmente. E é sobre um desses métodos que vou divagar um pouco hoje.

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Fazendo a egípcia num “tableau vivant”, prática de reproduzir pinturas e ilustrações na vida real.

Um pequeno relato de experiência 

Comecei a lecionar na rede pública de Florianópolis quando me formei, no primeiro semestre de 2008. Minha primeira escola, inclusive, levava a fama de ter os piores alunos e um diretor intragável, ao qual eu devo muito por ter aberto meus olhos para questão humanas dentro do ensino para as quais minha faculdade definitivamente não me preparou. Como várias outras escolas públicas Brasil afora, esta atendia uma comunidade extremamente carente, dominada pelo tráfico de drogas, com sérios problemas sociais que acabavam “estourando” dentro da escola. Foi ali que tive contato pela primeira vez com alunos de 9º ano que eram analfabetos e mais de uma vez cheguei em casa aos prantos, me sentindo a fracassada que não conseguia ensinar – mas também aprendi a trabalhar com outras linguagens além da escrita, apelando para música, leitura de imagens e jogos. Não por acaso, minha primeira aplicação de um RPG educativo foi lá, trabalhando a narrativa da imigração açoriana do século XVIII junto com habilidades de raciocínio lógico, trabalho em grupo e matemática. Mas ainda não era o suficiente. Eu queria que os alunos se percebessem como integrados a um contexto histórico mais amplo e como gente que realmente participa da história.

Foi só na minha quarta escola, em 2012, que eu consegui esboçar algo nesse sentido. Por sorte, minha mãe gosta de guardar lembranças e documentos antigos da família, então reunir material para o trabalho foi a parte mais fácil. De posse de uma série de documentos familiares (certidões, carteiras de trabalho, certificado de serviço militar, um broche, fotografias e até um livro de orações com quase 100 anos), era hora de criar uma atividade que envolvesse meus alunos. Meu objetivo era envolver os alunos em uma atividade que levasse ao levantamento de hipóteses através da análise de fontes primárias in loco (e não fac-símiles ou transcrições no livro didático), em que eles pudessem relacionar as diferentes fontes entre si e perceber como coisas aparentemente banais da vida deles são sim parte importante da história. Após toda a parte teórica de discutir o que é uma fonte histórica,as tipologias de fonte e o trabalho do historiador (até hoje, eles adoram quando eu digo que historiadores são detetives do passado, que não presenciaram o fato mas conseguem reconstruir pelo menos uma parte dele através das pistas que a humanidade vai deixando ao longo do tempo), dividi a turma em equipes e distribuí aleatoriamente as fontes. Cada equipe tinha um roteiro de análise para seguir, que incluía uma observação das características materiais da fonte, bem como as informações que podiam ser extraídas dela.

À medida em que os questionamentos iam surgindo, eu soltava informações complementares, como a localização das cidades que apareciam nas fontes, detalhes extras da biografia e do contexto histórico das fontes. Feita a análise em cada equipe, nós reconstruímos a trajetória daquelas pessoas em uma espécie de quebra-cabeça na lousa, com direito a linha do tempo. O fechamento da atividade foi fazer com que os alunos buscassem informações sobre suas próprias famílias conversando com seus parentes e, quando possível, obtendo fontes sobre as informações. O resultado final foi surpreendente, com os alunos escrevendo suas autobiografias (obrigada, professores de Língua Portuguesa!) e os pais, na reunião do trimestre, vindo à escola para conversar sobre o projeto. O mais interessante das produções autobiográficas é que, além do fato de que eu pude conhecer um pouco mais sobre meus próprios alunos, vários deles acabaram relacionando as trajetórias de suas famílias a momentos específicos da história recente da comunidade. Este projeto teve um impacto tão positivo sobre o resto do nosso ano letivo, que, nas escolas em que venho lecionando desde então, a mesma dinâmica é aplicada quando entro na escola, para quebrar o gelo com as turmas, e com as turmas de 6º ano, para recepcioná-los de uma forma prazerosa para ambos os lados.

Até este ano, eu estava fazendo isso de forma tímida e sem fazer muito alarde do assunto, já que esta prática parecia ir contra tudo o que tinham me ensinado sobre ensino de História na faculdade. Aí eu caí no curso do Smithsonian e descobri que isso é uma metodologia de ensino de História de origem canadense e aplicada com sucesso em vários países, interligando a produção acadêmica, os acervos dos museus e a prática pedagógica cotidiana. Inclusive, há museus que possuem programas para levar determinados objetos até as escolas, justamente para estas aulas “diferenciadas”.

ensino de historia objetos

As poucos as atividades foram ganhando uma dimensão maior com a incorporação de objetos do nosso acervo.

 

Ensinando com objetos: usando a cultura material para costurar  temas

Seguidores da época do Diários Anacrônicos sabem que eu sou a louca uma entusiasta da história da moda, não só do ponto de vista do estudo mas da prática também: eu pesquiso moldes e materiais originais e faço réplicas de trajes do século XVIII e XIX. Considero pessoalmente que usar um traje feito de acordo com um molde do período, e usando materiais o mais próximos possíveis dos originais, me aproxima da experiência feminina dos séculos passados. E como eu costumo dizer aqui e nas palestras e cursos, a moda perpassa questões de gênero, de classe, políticas e econômicas em cada botão e cada ponto.

Em 2014, fui representar a SHD na 8ª Primavera dos Museus, em uma mesa-redonda que tinha como tema “Memória, História e Museus”. Eu precisava sintetizar o trabalho da SHD de uma maneira não enfadonha e não-técnica para um público que ia desde professores da rede municipal e estadual, a servidores do estado, alunos de graduação de diferentes áreas e estudantes de ensino médio. Resolvi apelar para a materialidade. Coloquei um traje em estilo 1850 e levei uma reprodução de uma chemise a la reine (traje feminino surgido na década de 1780, que tem uma relação íntima com a Revolução Francesa, a rainha Maria Antonieta e a mudança dos trajes femininos no pós-revolução) e uma reprodução de um espartilho da mesma década. Montei as peças em dois manequins separados e deixei ali desde antes do início das atividades. O pessoal tirou foto, perguntou do que se tratava, se era original, se as mulheres tiravam realmente as costelas, se eu usava aquilo, se dava para respirar, pediram até para olhar embaixo da minha saia para ver a crinolina.

chemise a la reine corset stays espartilho

A Chemise a la Reine completa, com anágua, sash e bumpad foi feita por mim, baseada no molde recolhido pela Nora Waugh a partir de uma peça original. Os transitional stays são réplica de uma peça do acervo do Victoria & Albert Museum, caprichosamente feita pela Josette Blanchard Corsets.

Durante a exposição, comecei falando sobre o uso dos espartilhos e os papéis de gênero no século XVIII, trazendo também questões de classe e a organização da sociedade estamental e como a indumentária servia para demarcar fronteiras entre os grupos sociais de forma bem explícita. Expliquei que o espartilho puxava os ombros para trás e que havia uma maneira específica de andar, considerada aristocrática, e como isso se relaciona com a silhueta do período. Mostrei alguns slides com os amplos trajes de corte franceses do período e, para falar sobre a Chemise a la Reine, acabei trazendo questões relativas à dominação francesa e depois inglesa sobre a Índia, a importação de técnicas de estamparia indianas, a produção de algodão nos Estados Unidos, o desenvolvimento da indústria têxtil inglesa e a relação de tudo isso com o boom dos trajes de algodão estampado no século XVIII. Um dos slides trazia o infame retrato de Maria Antonieta usando uma Chemise a la Reine (1783), que para a época parecia mais uma camisola do que um vestido, e contei sobre a polêmica recepção que este retrato teve por parte do povo francês, que ficou perplexo ao ver sua rainha se deixando representar de modo tão indigno – o mesmo povo que, na década seguinte, entraria em êxtase com a execução da rainha durante a fase da República Jacobina, acusando-a de perdulária e traidora do povo.

À esquerda o indecente quadro original e à direita o retrato refeito, ambos por Élisabeth Vigée-Lebrun.

Foi uma experiência interessante porque eu não estava lá muito convencida da minha capacidade de manter um grupo tão heterogêneos de adultos e jovens adultos focados num tema que leva a fama de ser superficial e fútil, apesar de haver alguns diálogos bem interessantes entre moda e história. Enquanto a exposição se desenrolava, fiquei surpresa com as intervenções feitas pelos participantes, algumas delas na forma de risos (o choque com os hábitos do passado costuma causar esse tipo de reação), outras na forma de perguntas e colocações que complementavam a fala. Se foi possível usar algo tão banal quanto um espartilho para costurar tantos assuntos e manter a atenção de um grupo de adultos com formações e experiências tão diferentes, seria possível usar uma abordagem semelhante com alunos de 8º ano? Sim, foi, e os resultados foram incrivelmente satisfatórios. Com o 8º ano, o bônus foi vestir o espartilho em uma aluna que tem proporções corporais próximas às minhas e ver ela descrevendo a experiência de usar e tentar executar algumas ações simples – e fazendo uma comparação disso com o cotidiano de uma mulher pobre do Terceiro Estado, nos anos 1780.

Durante as atividades que tenho feito do curso online, tenho lido vários relatos de experiências semelhantes, realizadas desde as Séries Iniciais até a pós-graduação e também fora do espaço escolar, todas com resultados semelhantes.

  1. O objeto por si só funciona como um ponto de foco, pois ele é um elemento que não pertence à sala de aula e por isso  causa estranhamento e curiosidade;
  2. Os objetos, quando não pertencem ao contexto histórico dos estudantes/participantes, levantam uma série de questionamentos, que servirão de base para a discussão que se segue;
  3. Quando os objetos são familiares para os estudantes/participantes, mas representam mudanças de função ou de estilo ao longo dos anos, acabam acionando uma série de memórias que incluem experiência pessoais ou relatos de terceiros. (ex.: “Minha mãe conta que minha avó usava um desses.”)
  4. A exploração das características físicas e do uso social do objeto permite entrelaçar uma série de temas que vão desde as relações de produção, passando por papéis de gênero, relações de classe e étnico-raciais e até ambientais, além de permitirem uma visualização da inserção daquele objeto em contextos políticos e econômicos mais amplos.
  5. Por ser um trabalho diferenciado, que busca instigar o espírito investigativo, as aulas centradas ou iniciadas a partir de objetos mantêm os alunos/participantes envolvidos nas atividades, pois as mesmas oferecem um desafio.

OBJETOS NA SALA DE AULA

Como parte da proposta de me aprofundar no assunto, estou traduzindo alguns artigos sobre o tema para postar no blog. No momento ainda dependo das autorizações tanto de alguns autores quanto dos veículos onde foram originalmente publicados, mas um deles já está disponível. É um artigo da professora Laurel T. Ulrich, da universidade de Harvard, falando sobre as experiências dela com o uso de objetos em sala de aula com diferentes tipos de grupos e trazendo alguns exemplos que podem nos ajudar a pensar em como utilizar esse método por aqui.

 


About Pauline Kisner

Historiadora, fundadora da Sociedade Histórica Destherrense e sócia proprietária na Floripa Dazantiga -Roteiros Culturais. Apaixonada pelas histórias das coisas e pessoas comuns, acredito que a História pode ser aprendida de forma leve e divertida, para além dos livros e da sala de aula.