Esta tal de…Belle Époque (1870-1914)


“O Espelho” (Frank DICKSEE, 1896)

Conhecidos como Belle Époque, os anos 1890-1914 (alguns autores trabalham com o recorte 1871-1914, enquanto outros aceitam apenas o período de 1900-1914 sob essa denominação) entraram para o imaginário ocidental como um período de efervescência econômica e cultural, luxo e diversão. Como disse Philippe Julian em seu ensaio sobre este período para o Museu Metropolitano de Nova York, a Belle Époque é um daqueles momentos nos quais o mito substitui completamente a história no imaginário ocidental. Falar da Belle Époque é evocar a imagem de dançarinas com meias negras, corpetes de veludo rosa e chapéus cheios de penas dançando cancan num cabaré em Paris, para uma audiência formada por cavalheiros ingleses bem vestidos, artistas boêmios e militares austríacos em seus uniformes garbosos. Embora o imaginário popular tenha retido bem uma parte da atmosfera do período – no qual a diversão se tornou algo a ser perseguido e que estava disponível a preços para todos os bolsos -, a Belle Époque foi um período muito complexo social, econômica e politicamente, durante o qual se desenharam os conflitos que levariam à Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

 

Para entender a Belle Époque, precisamos fazer uma parada rápida no século XIX.

 

Os anos 1800 já começaram com a Europa sendo sacudida pelas guerras de conquista orquestradas por Napoleão Bonaparte. Depois que Napoleão foi derrotado definitivamente (1815), os principais reinos europeus se organizaram em um grande evento diplomático, o Congresso de Viena, que tinha por principal objetivo colocar de volta nos seus respectivos tronos todos os reis que tinham sido depostos por Bonaparte, devolver as fronteiras aos seus traçados originais e reafirmar a autoridade dos reis e da Igreja. Desnecessário dizer que isso não foi muito bem recebido, o que deu origem a uma onda de revoluções regionalizadas na década de 1820, reivindicando a independência de países como a Grécia, que pertencia ao Império Otomano. Nestas revoluções já aparecia um elemento perigoso, que se manteve latente durante todo o século e teve um papel importante na Primeira Guerra Mundial: o nacionalismo.

Em 1830, uma nova avalanche de levantes, que chegou a atingir o Brasil e tem relação direta com a renúncia do nosso imperador D. Pedro I. Em 1848, quando as coisas estavam começando a parecer mais calma, mais de 50 levantes ocorreram pela Europa inteira, motivados por questões políticas e por uma crise agrícola gigantesca. Nas décadas seguintes, a Itália e a Alemanha, ambas formadas originalmente por uma série de reinos independentes, se unificariam para dar origem aos países que conhecemos hoje. O Império Alemão, aliás, se formou após uma guerra na qual a França saiu vergonhosamente derrotada. Então, a partir da década de 1870, graças à habilidade dos diplomatas, a Europa entrou em um período de relativa estabilidade e paz.

 

A Belle Époque se refere a um período de paz internacional, crescimento econômico, relativa estabilidade política, urbanização e acelerado desenvolvimento tecnológico que se estende da Guerra Franco-Prussiana (1871) ao início da Primeira Guerra Mundial (1914). E os epicentros deste mundo eram Paris e Viena, capitais da vida social e cultural.

Exposição Universal em Paris, 1900.

Não por um acaso a Belle Époque é, por excelência, a era das invenções e dos prazeres – mas também de tensões sociais. As técnicas de construção foram aperfeiçoadas, tornando possíveis coisas como a Torre Eiffel e o Grand Palais, em Paris. Com melhorias nos motores, os navios de comércio e de viagem se tornaram maiores e mais rápidos e também mais baratos, com a divisão em três classes de passageiros. Em 1897, um navio da North German Lloyd completou o percurso entre Southampton (Inglaterra) e Nova York em 5 dias, 17 horas e 8 minutos. O navio da Belle Époque, e o filme “Titanic” de James Cameron ilustrou isso muito bem, era uma imagem da própria sociedade: divisões sociais muito bem delimitada, com toda a parte destinada à aristocracia marcada pelo luxo e pela diversão, mas por uma série de convenções sociais.

Aumentam a lista dos meios de transporte a invenção dos automóveis (o primeiro motor de combustão foi patenteado em 1879, o primeiro carro foi construído em 1885 e a palavra “automóvel” aparece em 1897) e do avião, com duas datas aceitas pela Federação Internacional de Aeronáutica: os irmãos Wright, americanos, em 1903 e o brasileiro Santos Dumont em 1906.

Cartão-Postal francês de 1906, mostrando o lendário 14-bis de Santos Dumont.

A fotografia também se populariza durante a Belle Époque, com a invenção das máquinas portáteis fabricadas pela Kodak. Em 1895, em Paris, os irmãos Lumière fizeram a primeira demonstração pública do cinematógrafo, dando início ao cinema, que foi uma das diversões mais populares da primeira metade do século XX.

As concepções médicas e estéticas sobre saúde também mudaram drasticamente neste período, passando a enfatizar a atividade física como necessária para uma vida saudável. A silhueta feminina também passou por uma grande mudança, perdendo os volumes tão típicos da moda vitoriana. Como resultado disso, as práticas desportivas começam a se tornar populares em várias camadas sociais: ciclismo, automobilismo, ginástica, patinação, natação, golfe, remo, futebol. Os Jogos Olímpicos são trazidos de volta à vida pelo Barão de Coubertin em 1894, como resultado dessa valorização dos esportes.

Maurice Garin, vencedor do primeiro Tour de France, realizado em 1903.

Embora no campo os avanços tecnológicos tenham demorado a chegar e a vida e o trabalho permanecessem muito parecidos com dois séculos antes, havia uma atmosfera  de otimismo e  entusiasmo pelo progresso e pelo estado geral da sociedade. Nos últimos 100 anos, a indústria se desenvolvera e com ela o movimento operário, que garantira melhorias como a redução das jornadas de trabalho; mas este movimento operário também representava um problema para os patrões à medida que as ideias socialistas e anarquistas cresciam entre os trabalhadores. Cada vez mais, as pessoas trocavam o campo pela cidade em busca de melhores oportunidades, liberando mão-de-obra para a indústria e comércio, mas também aumentando a população pobre nas periferias das grandes cidades. Na Belle Époque, a concentração de população pobre em “construções insalubres” foi alvo de uma cruzada do poder público, que buscava melhorar as condições sanitárias dos centros da cidades – mas acabava expulsando as pessoas pobres de suas casas e para bairros cada vez mais afastados.

Antes da reformas da Belle Époque, nem mesmo Paris se parecia com a Cidade-Luz que conhecemos hoje. Esta foto faz uma comparação entre a cidade na década de 1860 e uma foto atual, com construções do período da Belle Époque.

A Belle Époque é marcada pelo estilo Art Nouveau. Com muitas influências  orientais, o Art Nouveau traz para a arquitetura e para as artes decorativas uma inspiração retirada da natureza, mas executada com muito mais leveza do que a cerimoniosa arte do período vitoriano. Com muitas referências a folhas, galhos e animais, a arquitetura do Art Nouveau apresenta linhas longas e sinuosas, misturando elementos artísticos e industriais, combinando vitrais e madeiras entalhadas com estruturas em ferro, por exemplo. Este estilo vai atingir não apenas as construções, mas a mobília, os objetos de decoração, jóias e roupas.

Detalhe de uma construção de 1905 em Paris.

 

Broche da Casa Lalique, s.d.

 

Interior da joalheria Fouquet, em Paris, projetado por Alfons Mucha em 1901.

 

“Quartos da Lua”, 1902.
Alfons Mucha é o artista que melhor resume todas as características do Art Noveau – vale a pena uma pesquisa no Google.


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