Especial 7 de setembro: O que se ouvia no Brasil em 1822?


Dom Pedro I compondo o Hino da Independência. Pintura de Augusto Bracet, 1921.

Começamos este Especial da Independência tentando descobrir qual era música que “fazia a cabeça” de um brasileiro mediano em 1822. Além das tradicionais músicas executadas nos ritos religiosos, como as composições sacras do Padre José Maurício, que ritmos e melodias embalavam a vida do brasileiro em 1822? Mesmo esse padre, que tinha um cargo importante como Mestre da Capela Real (basicamente o compositor de estimação de Dom João VI), não conseguiu se manter distante de um gênero musical que muitos pesquisadores consideram como genuinamente brasileiro: a modinha.

Embora não haja um estudo que comprove qual foi a primeira modinha composta, há um registro de 1787 [1] atestando que as modinhas brasileiras já haviam chego a Portugal e eram executadas para a própria Rainha Maria I, antes que os ecos da Revolução Francesa lhe tirassem o resto de juízo.

modinha nasceu como um gênero musical popular, tocado por músicos amadores (sem formação clássica) nas ruas das cidades. São canções em que o tema é o amor, cantado ao som da viola; não o amor pleno, realizado, mas geralmente o amor impossível, separado por barreiras sociais, pelo decoro ou pela distância. Com a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, em 1808, os músicos estrangeiros travaram um contato mais aprofundado com esse gênero[2]. Desse encontro resultou o registro escrito e a harmonização de muitas composições que até então só existiam na oralidade e uma troca entre o popular e o erudito. A modinha ganhou então novos instrumentos e se transformou quase em música de câmera, adequada aos salões elegantes que começavam a nascer na Corte. Entram em cena os cravos, as flautas, os pianos, as harmonias mais europeizadas e as linhas vocais com influências da ópera. Foi com esses registros que as modinhas sobreviveram até os dias de hoje.

“Por que me dizes chorando” é uma composição de José Manoel da Câmara, que vivia e compunha no Rio de Janeiro em 1822. Bem provável que sua música fosse executada no piano de alguma casa da Corte em setembro daquele ano:

Quantos poetas melancólicos não terão se emocionado ao som de “Desde o dia em que eu nasci”, do mesmo Manoel Câmara?

Ao lado da modinha, o lundu era um ritmo bastante executado na Corte naquele começo de século XIX. De origem africana, provavelmente angolana ou congolesa, o lundu era não só um gênero musical, mas também uma dança considerada licenciosa e imoral pela sociedade e pelo governo coloniais. No entanto, o lundu foi parar nos salões e nas casas elegantes, justamente a partir do momento que músicos como o austríaco Sigismund Neukomm despiram o ritmo da coreografia e lhe deram ares mais decentes. Se a modinha servia para cantar o amor romântico e idealizado, o lundu era o veículo perfeito para todo o tipo de sátira e narrativas mais sensualizadas do amor[3].

Em 1819, o maestro Neukomm compôs a belíssima obra “O Amor Brasileiro”, uma fantasia em cima de um lundu. Era a primeira vez que esse ritmo saía das ruas e senzalas e ganhava os salões elegantes da colônia.

 

O lundu-canção, por sua vez, tinha versos a serem cantados. E as letras que falavam de amor não eram necessariamente bem comportadas. A dubiedade e a sensualidade ficavam nas entrelinhas, como em “Esta Noite”, de José Francisco Leal (ativo até 1819):

Da música realmente popular, em sua forma mais pura, carecemos de registros, digamos, imparciais. Há várias referências na literatura de viajantes ao lundu e ao batuque como ritmos e danças dos escravos, mas sempre a partir do olhar europeu, que já iniciava a observação com uma série de preconceitos. Ainda assim, alguns viajantes chegaram a registrar em forma de partitura as músicas que acompanhavam essas danças, como é o caso de Spix e Martius, cujos registros estão disponíveis nessa página do portal Música Brasilis.

Nem só de execuções do Hino Nacional se faz um 7 de setembro, certo?

PARA SABER MAIS:

* CASTAGNA, Paulo. A Modinha e o Lundu nos séculos XVIII e XIX. http://unesp.academia.edu/PauloCastagna/Papers/1136277/A_MODINHA_EO_LUNDU_NOS_SECULOS_XVIII_E_XIX

* Portal Música Brasilis: http://www.musicabrasilis.org.br/

* ULHÔA, Martha T. Matrizes: música popular no início do século XIX no Rio de Janeiro. http://lanic.utexas.edu/project/etext/llilas/vrp/ulhoa.pdf

 

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NOTAS

[1] Ver http://www.collectors.com.br/CS06/cs06_05n.shtml

[2] Até hoje existe uma discussão se a modinha era popular e se tornou erudita ou o movimento foi em sentido contrário. Leia mais em http://www.unirio.br/simpom/textos/SIMPOM-Anais-2010-AlexandreFrancischini.pdf

[3] Ver http://www.collectors.com.br/CS06/cs06_05g.shtml


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