O comércio de carnes em Desterro no século 19


No século 19, Florianópolis enfrentava problemas com a venda de carne bovina adulterada e até estragada

 
Em um tempo sem geladeira ou freezer, as opções de consumo de carne eram mais restritas do que hoje em dia. Esqueça os hambúrgueres, nuggets e espetinhos congelados: um típico morador do Desterro no século 19 tinha poucas opções de consumo de carne.

A CARNE SECA

Produzida principalmente no Rio Grande do Sul e na Argentina, a carne secca (também conhecida como charque) era o método mais antigo e barato de conservar as carnes e que permitia estocá-las em casa por um certo período, que variava de acordo com a umidade do ar e a qualidade do charque. A carne seca chegava a Desterro principalmente de navio e era então comprada pelos vários armazéns da cidade, que anunciavam sua mercadoria nos jornais. Se você morasse em Desterro em 1861, poderia escolher o lugar onde faria suas compras através de anúncios como esse:

Anúncios publicados n’ O Argos em 12 de abril de 1861.

Ficou perdido(a)? O sobrado do Sr. José Gonçalves ficava na esquina das atuais ruas Deodoro e Conselheiro Mafra e o armazém do finado Ferraz Pinto, no final da atual rua Trajano, já próximo à praia que havia nas imediações da Alfândega antes dos aterros.
A CARNE VERDE
A chamada “carne verde” era a carne fresca, de gado abatido no dia. A maior parte da carne bovina disponível para venda em Desterro tinha origem na Serra, de onde os tropeiros traziam rebanhos para abastecer a capital da província. Quando o gado não descia em quantidade suficiente – porque os rebanhos diminuíam ou era mais vantajoso vendê-los em outras províncias -, havia as crises de abastecimento. Há registros de crises sucessivas em 1816, 1822, 1854 e 1858. Nessas crises, o preço da carne verde disparava e os jornais denunciavam os valores abusivos e o estado geral das carnes disponíveis.
A carne bovina era alvo de intensa regulamentação por parte do governo. As tropas que vinham dos campos da serra precisavam de autorização do poder público para entrarem na Ilha, autorização que só era dada mediante o pagamento dos impostos devido. O gado era então abatido no Matadouro Municipal, que ficava nas imediações do forte de Sant’Anna e quase na diagonal do Cemitério Público, para que depois os cortes fossem colocados à venda no Mercado – que até 1899 ficava aos pés da Praça XV.:
Nem toda a carne vendida  vinha do Matadouro Municipal, porém. Os pequenos produtores da várias áreas da ilha tinham por hábito trazer seus produtos para vender na praia que havia onde hoje encontramos a Praça Fernando Machado, aquela com as colunas rosadas que homenageiam o antigo Miramar. Antes da construção do primeiro Mercado, que ocorre após a visita de D. Pedro II em 1845, tudo o que havia naquela região eram barraquinhas onde se vendia todo tipo de gêneros alimentícios e as canoas onde muitos produtores do interior da Ilha negociavam carne, hortaliças e pescado direto com o consumidor.
Como as vendas na região começavam muito cedo, uma figura constante na região eram os pombeiros,  vendedores ambulantes que compravam gêneros no mercado para revendê-los de porta em porta. A atividade dos pombeiros também foi alvo de fiscalização do poder público, para impedir que eles comprassem a maior parte dos gêneros de primeira necessidade como a carne, e fizessem o preço dela subir. Para garantir um preço acessível principalmente aos mais pobres, o Código de Posturas Municipal estabelecia que o acesso do pombeiros ao Mercado só seria possível a partir das 9h da manhã. E, graças aos jornais da época, sabíamos que já por volta das 11h  só era possível encontrar restos de carne.
A foto a seguir é do Mercado atual, já no começo do século XX, mas ajuda você a ter uma ideia de como seria uma saidinha para as compras do dia:
Carne adulterada: um velho problema
O consumo de carne bovino era alto para os padrões de uma cidade pequena. Em 1870, abatiam-se em média 72 cabeças de gado por semana nos dois matadouros administrados pelo poder público, isso sem contar os cortes vendidos pelos pequenos produtores e no mercado negro. A grande procura e as sucessivas crises de abastecimento, aliadas às peculiares noções de higiene da época, levavam a um problema de saúde pública.
O péssimo estado geral das carnes vendidas era frequentemente discutido nos jornais. Em 1859, “O Argos” denunciava a conivência de funcionários públicos, que fechavam os olhos para o desrespeito ao Código de Posturas e permitiam a livre-circulação de animais pelas ruas da cidade e a venda de carne passada pelos açougues. De acordo com os redatores d’O Argos, os carniceiros (funcionários dos açougues) tinham por hábito dividir os bois gordos em dois, vendendo-os em dias diferentes para obter um preço mais alto – isso numa época em que não havia qualquer tipo de refrigeração para a carne. Os cortes, muitas vezes com 3 dias, eram vendidos como frescos, tendo seu estado de tal modo disfarçado pelos carniceiros que somente ao cozinhá-la o cliente percebia que comprar carne quase podre.  Frequentes eram também as denúncias de carne mal sangrada, o que acelera a decomposição e dá à carne um cheiro pútrido, assim como o abate de gado doente para venda ao povo.
 

PORCOS E FRUTOS DO MAR
Menos acessível ao povo em termos de preço era a carne suína. Enquanto a carne bovina variava de 160 a 80 réis a libra (aproximadamente 450g), dependendo do corte e da qualidade, os cortes suínos eram vendidos a 480 réis a libra, conforme registro de 1861. Para fins de comparação, o charque registrava um preço médio de 180 réis a libra na mesma década.
O peixe, por outro lado, era abundante e barato. Junto com a farinha, era a base da alimentação das pessoas pobres e dos escravos e, em função disso, a lei proibia de fosse vendido pelos pombeiros e fora das bancas de peixe de forma geral. As Posturas determinavam que ao fim do dia os peixes podres deveriam ser devolvidos ao mar e nesse momento a população pobre disputava os restos das bancas. Os peixes vendidos não tiveram seus nomes registrados pelos documentos oficiais, mas sabemos que eram vendidos por unidade, não por peso. Junto com os peixes vendiam-se tartarugas, caranguejos e camarões, sendo os últimos eram comercializados aos centos. Sobre os camarões, aliás, havia uma proibição específica sobre a venda do camarão miúdo ou “sete barbas”, que já recebia esse nome e era considerado prejudicial à saúde.
Apesar das denúncias e polêmicas, o Mercado permaneceu como o centro do abastecimento de alimentos da cidade até os anos 1960-1970, quando os supermercados ganharam espaço e mudaram os hábitos de consumo dos moradores de Florianópolis.
FONTES
Oswaldo Rodrigues Cabral. “Nossa Senhora do Desterro” – notícia 1 e 2
Fabiane Popinigis. “Aos pés dos pretos e pretas quitandeiras”
Laura Hübener. “O Comércio em Desterro no século XIX”
Jornal O Argos (Biblioteca Pública de Santa Catarina)
Jornal do Commercio (Biblioteca Pública de Santa Catarina)
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