Por que eu preciso usar corset com meu traje histórico?


 

Um bom traje histórico é, obrigatoriamente, construído de dentro para fora. Isso significa que todas aquelas peças maravilhosas de museus que circulam no Pinterest têm um trabalho invisível sob elas, resultado de um intensa pesquisa sobre o tipo de suporte usado em cada época.

Atualmente, a única peça de suporte mais ou menos obrigatória no guarda-roupa feminino é o sutiã, que tem como função tanto sustentar os seios quanto dar ao busto um determinado formato que é considerado agradável. E este formato agradável teve um conceito bem variado nos últimos sessenta ou setenta anos, gerando diferentes formatos de busto nos últimos sessenta ou setenta nos. Esta imagem ilustra bem um pouco da mudança:

Créditos: Wearing History

Só a título de curiosidade, outra comparação entre 1950, 1970 e as lingeries atuais:

Uma combinação aparentemente simples como sutiã+calcinha ou sutiã+cinta pode transformar sua roupa em um sucesso ou um desastre. Basta você imaginar o que seria um vestido de cetim, muito leve, usado sobre uma calcinha fina e aperta, daquelas que marca até a alma de quem veste. Se a regra de que a roupa de baixo correta é a primeira etapa para um look bem montado vale para os dias atuais, em que a lingerie foi simplificada, pense no valor dessa regra quando se trata de trajes históricos.

O corset é, originalmente, uma peça que fazia parte da roupa íntima feminina e não era exposto por aí. Se você está planejando um traje histórico, é preciso saber que cada época tem um corset diferente, mas que eles eram usados EMBAIXO da roupa e nunca por cima.

 

COMO FUNCIONA UM CORSET

Ilustração original do século XIX demonstrando os efeitos do uso constante de corset. Este tipo de reacomodação drásticas dos órgãos internos acontece através do uso a longo prazo. Um dos efeitos colaterais é o surgimento de volume extra no baixo ventre. Com esse tipo de ilustração, é preciso considerar a leve tendência que os médicos vitorianos tinham de exagerar quando o assunto era o uso do corset.

Embora haja uma febre de tight lacing ultimamente, e vários sites divulguem as histórias macabras das mortes durante a Era Vitoriana atribuída ao corset e a outras peças de suporte como a crinolina (com cifras para as quais ainda não consegui encontrar uma única fonte primária fidedigna), a função primária de um corset não era afinar a cintura. Ele era uma peça para dar suporte aos seios numa época anterior aos sutiãs e para garantir o caimento correto das roupas no tronco. Até a invenção dos ilhóses de metal (inventados em 1828 e popularizados bem mais tarde), os buraquinhos por onde passavam as cordas do corset eram finalizados com uma costura manual, o que não permitia muita tensão na amarração sem danificar a peça e inviabilizava aquilo a que hoje chamamos de tight lacing. A modificação corporal acontecia sem ser um objetivo em si, simplesmente porque as regiões do corpo onde há depósito de tecido adiposo (“gordura”) podem ser modeladas através de compressão constante – assim como acontece com as roupas de cintura baixa muito apertadas, que geram a tal “cintura dupla”.

Nem toda reconstrucionista precisa praticar tight lacing e deslocar as costelas flutuantes para afinar a cintura permanentemente. É possível fazer um uso esporádico, somente com trajes de época, sem causar modificação permamente. As mulheres vitorianas tinham seu corpos modificados porque não havia outra opção além do uso constante do corset. O corset era a única peça de suporte dos seios que existia e estava disponível em uma grande variedade de materiais, modelagens e custos: havia os corsets sob medida das grifes de luxo, havia os corsets industriais produzidos em larga escala e havia os corsets feitos em casa. Sem contar que havia uma analogia moral no corset, assim como havia em relação aos cabelos femininos: corpo e cabelos soltos equivaliam à frouxidão moral. Um terceiro fator a ser citado aqui é o fato de que a moda vitoriana buscava o tempo todo enfatizar a diferença entre o corpo feminino e o masculino, o que é apontado por alguns pesquisadores como a razão por trás das loucas silhuetas do período.

 

POR QUE USAR O CORSET E ALTERNATIVAS POSSÍVEIS

Esta experiência do blog The Pragmatic Costumer ilustra bem a diferença que algum tipo de suporte faz no resultado final de um traje vitoriano:

Observando a imagem, você percebe facilmente como, com o corset, o vestido assenta melhor no tronco e no quadril. Também é possível observar como a linha do busto muda, criando uma linha suave entre o busto e o tronco e apagando o contorno dos seios. Bem, minhas queridas, isso é o padrão da moda vitoriana: os seios não eram delineados sob a roupa, mas formavam um volume único referido como monobosom e que se manteve como padrão até a década de 1920.

Se você não tem o busto muito volumoso e naturalmente possui a cintura marcada, o corset (que é uma peça cara e deve ser feita sob medida) pode ser facilmente substituído pela combinação de sutiã esportivo, daqueles que comprimem o busto, e um corselete desses chineses. Só lembrando que os corseletes não são pensados para modelar a cintura e nem servem para este fim. Eles são peças decorativas, mas, como têm barbatanas plásticas, ajudam a criar esta linha suave no tronco que vimos ali em cima. Não substitui completamente o corset, mas é uma alternativa mais econômica para quem está começando ou não tem como investir na reconstrução histórica com tudo.

A má notícia para nós, que jogamos no lado rechonchée da Força, é que precisamos de mais suporte e o corset oferece isso mais do que a melhor cinta disponível no mercado. Falando do ponto de vista de uma gordinha que faz uso esporádico de corset, ele é bem menos restritivo do que pode parecer. Você não vai correr uma maratona com ele, mas também não vai desmaiar sem ar e ser resgatada do mar pelo Jack Sparrow. Os meus corsets não têm reduções drásticas na cintura e ajudam a longar minha silhueta e arrumar minha postura, que é lastimável, mais do que propriamente afinam a cintura. Eu realmente aconselho as minas mais gordinhas que estejam na reconstrução histórica a procurar uma corsetmaker e conversar com ela sobre o assunto. Pessoalmente, indico a Josette Blanchard Corsets porque, além de trabalhar com reproduções e adaptações de modelagens originais, ela têm alguns modelos que caem muito bem em corpos mais cheinhos. Algumas conhecidas do hobby também relatam boas experiências de atendimento e com os produtos da U Fashion Corsets.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este post serviu para mostrar, de forma bastante superficial, o efeito do corset sobre o corpo e como o corset adequado pode fazer com que aquele traje que você passou meses desejando saia o mais próximo possível das suas imagens de referência.

Gostaria de encerrar o artigo fazendo algumas considerações acerca das imagens de referência. Tanto quanto hoje em dia, as imagens veiculadas em revistas de moda da época representavam uma idealização completamente distante da realidade. Se você observar com calma as ilustrações da Era Vitoriana, as mulheres têm pés e mãos microscópicos, pescoços irreais que se curvam contrariando todas os limites do corpo humano e bocas pequenas e delicadas. As roupas eram desenhadas pensando nessa idealização, mas, numa época em que ainda predominavam as roupas sob medida, muitas vezes feitas em casa, cada costureira adaptava as linhas gerais da silhueta para o corpo da cliente.

As gravuras de moda e as revistas disponíveis para download são legais porque fornecem pistas valiosas sobre tecidos, decorações e combinações de cores. Mas, para ver como um traje assentava no corpo de uma  mulher de verdade, procure fotografias da época (a partir de 1840, claro). Algumas das chaves de busca que você pode utilizar no google e no pinterest:

década que você está pesquisando + cdv

carte-de-visite + ano ou década

daguerreotype (vai retornar resultados anteriores a 1860, majoritariamente)

E dois pontos muito importantes:

A moda é o império do faz-de-conta desde sempre. Ilusões de óptica, com volumes e recortes nos lugares certos, podem ser o que você precisa para chegar à silhueta da época.

Reconstrução histórica é 90% pesquisa e 10% mão na massa, mas o esforço é recompensado vale totalmente a pena quando alguém diz que você parece ter saído de uma máquina do tempo 😉

 

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About Pauline Kisner

Historiadora, fundadora da Sociedade Histórica Destherrense e sócia proprietária na Floripa Dazantiga -Roteiros Culturais. Apaixonada pelas histórias das coisas e pessoas comuns, acredito que a História pode ser aprendida de forma leve e divertida, para além dos livros e da sala de aula.

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