O que faz um traje ser histórico?


Olá, caríssimos! O blog Diários Anacrônicos agora é uma coluna dentro do site da Sociedade Histórica Destherrense, publicada sempre às quintas-feiras. Aqui vamos falar principalmente sobre a moda dentro da reconstrução histórica e não só da Era Vitoriana. Hoje nosso assunto é a diferença entre releitura e traje histórico.

MEU TRAJE É HISTÓRICO?

Muitas pessoas entram em contato comigo para tirar dúvidas sobre a montagem de seus trajes tanto para os eventos vitorianos quanto de outras épocas. Na maioria das vezes a pergunta que aparece é “meu traje é histórico?” e fica realmente difícil responder isso nas poucas linhas de uma mensagem.

De forma geral, podemos definir um traje histórico a partir de três itens:

Montagem: o traje segue moldes de época ou muito próximos dela, respeitando as posições das costuras, tamanho de mangas, comprimento da barra, etc.

Materiais: tipos de tecidos, cores, estampas, botões, bordados, passamanarias, rendas… em um traje histórico tudo precisa ser o mais próximo possível dos originais.

Suporte correto: cada período da história da moda tem peças específicas que ajudam a criar a silhueta característica: pense em corsets, armações de saia e anáguas, por exemplo.

Diferentes períodos possuem diferentes silhuetas e métodos para alcançá-las. O traje histórico precisa, portanto, ser construído de dentro para fora.

A acuracidade ou correção histórica de um traje pode variar de acordo com os materiais e técnicas utilizados na construção. O objetivo é chegar o mais próximo possível dos originais de época.

Particularmente, eu defendo que mesmo o traje histórico precisa de adaptações de material e modelagem por três motivos:

a) nossos corpos, principalmente os femininos, mudaram bastante em relação a 100 anos atrás, por exemplo. Muitos moldes originais têm proporções muito diferentes das que encontramos atualmente, então é preciso adaptar;

b) muitos materiais utilizados nas peças originais não estão mais disponíveis (como as barbatanas de baleia);

c) nem sempre nossos orçamentos permitem comprar 10m de seda ou lã pura e isso não deve ser impedimento para você fazer o seu traje. É possível fazer adaptações sem transformar o traje em uma fantasia, mesmo utilizando tecidos e aplicações sintéticas.

Trajes históricos produzidos a partir de peças do final da década de 1870. O traje histórico se preocupa tanto com a silhueta quanto com os materiais utilizados.

A produção de um traje histórico demanda algum tempo de pesquisa e de confecção. E também requer paciência: um bom kit de reconstrução histórica está sempre sendo aperfeiçoado. A melhor dica que posso oferecer, especialmente aos iniciantes, é que um traje histórico deve ser pensado de dentro para fora. Quando você escolher um período de sua preferência, comece pesquisando quais peças de roupa de baixo eram usadas para criar aquela silhueta específica. Depois que as peças de suporte estão prontas, fica bem mais fácil construir seu traje!

Respondendo à pergunta do título: seu traje será tão histórico quanto for o seu comprometimento com a pesquisa. Se você faz algumas concessões e adaptações de forma consciente, mas sempre tendo em mente ficar o mais próximo possível dos trajes originais, isso não é um problema.

E O QUE FAZ UM TRAJE SER RELEITURA?

O traje se torna uma releitura à medida em que ele se afasta dos originais de época e vai sendo adaptado pelo gosto e necessidade da pessoa que o veste. É um recurso comum que vemos em filmes, produções de teatro e novelas, que precisam adaptar os trajes históricos em termos de materiais, praticidade e até para criar versões mais moderninhas, mas com um toque de época.

Embora as releituras peguem emprestados muitos elementos de época, elas não são trajes históricos, pois as releituras fazem uma reinterpretação do passado, muitas vezes misturando informações de diferentes períodos e até de fantasia.  É o caso do steampunk, que mescla elementos históricos e fantasiosos, com referências vitorianas e de um passado tecnológico fantástico. Também podemos citar aqui as Lolitas/Roriitas e a subcultura gótica, ambas com referências à moda da Era Vitoriana, mas sem nenhum compromisso em recriar todos os elementos historicamente corretos de um traje.

A releitura permite que você brinque com a mistura inusitada de cores, objetos e silhuetas de diferentes épocas, enquanto o traje histórico obedece às características dos trajes originais do período que está sendo reconstruído.

Como uma releitura, o steampunk mistura referências históricas com elementos atuais e de fantasia.

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About Pauline Kisner

Historiadora, fundadora da Sociedade Histórica Destherrense e sócia proprietária na Floripa Dazantiga -Roteiros Culturais. Apaixonada pelas histórias das coisas e pessoas comuns, acredito que a História pode ser aprendida de forma leve e divertida, para além dos livros e da sala de aula.

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