La Mort Verte: moda, morte e venenos no século 19


O arsênico, hoje conhecido como veneno, já foi um ingrediente importantíssimo na indústria da moda. Recentemente, o Bata Shoe Museum inaugurou a exposição “Vítimas da Moda: Prazeres e Perigos da roupa no século XIX”. Além de abordar a importantíssima questão das condições de trabalho a que eram submetidos os funcionários da indústria da moda, a exposição trouxe à tona informações sobre o uso de agentes tóxicos, principalmente para a fixação de corantes têxteis, naquele período.

O século XIX já começa com uma valiosa inovação em termos de tecnologia têxtil. Graças às pesquisas de Charles Tennant, que desenvolveu o pó de clareamento à base de cloro, foi possível produzir tecidos naquilo que hoje chamamos de off-white. Antes disso, as técnicas de alvejamento incluíam o uso de urina envelhecida, na qual a roupa era fervida e depois colocada para secar sob sol direto durante horas. Quando pensamos no período da Regência (e em todos os filmes baseados em livros da Jane Austen), é inevitável lembrar dos delicados vestidos de musselina branca – que eram acessíveis apenas a uma parte muito pequena da população. Tanto a técnica de alvejamento com cloro quanto a técnica tradicional de clareamento com urina envolviam reações químicas complexas e com compostos perigosos, que afetavam diretamente a saúde dos envolvidos em sua lavagem e produção. Cegueira e queimaduras químicas no trato respiratório eram alguns dos problemas de saúde enfrentados pelos trabalhadores da indústria do tecido branco naquele período. Mas o branco não era, nem de longe, o tom mais perigoso de produzir ou vestir.

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Até 1799, quando Charles Tennant inventou o pó alvejante, os tecidos brancos eram obtidos através de um processo de clareamento que empregava urina envelhecida. Apesar do romantismo desse quadro do século XVIII, a vida de uma lavadeira não era nada simpática.

A MORTE É VERDE – E A CULPA NÃO É DO ABSINTO

Em 1775, o farmacêutico suíço Carl Wilhelm Scheele criou um pigmento verde de altíssima fixação, que até o fim do século XVIII substituiria todos os outros. Sua formulação inovadora, porém, escondia um risco direto à saúde, pois o aspecto vibrante e a durabilidade do pigmento vinham da combinação de arsênico e sulfato de cobre. Em função de sua composição, o chamado “Verde Scheele” tendia a escurecer com o passar do tempo,o que não impediu a disseminação da tintura na arte, na decoração e na indumentária.

O Verde Scheele era largamente utilizado em papéis de parede, cortinas, velas, almofadas, flores artificiais, roupas e até como corante alimentício. Entre os trabalhadores que produziam essas peças, e também entre artistas, os envenenamentos por arsênico eram comuns e envolviam sintomas como tontura (alguns pesquisadores defendem que a figura icônica da mocinha vitoriana que desmaia possa ter nascido dos desmaios provocados pelo arsênico dos papéis de parede), perda do apetite, náuseas, diarreia, dores de cabeça, irritabilidade, convulsões e coma. O contato com arsênico também está ligado ao desenvolvimento de tumores malignos e queimaduras nas vias áreas.

O arsênico era absorvido de três formas: através da inalação (de velas ou do pó do papel de parede), ingestão oral (no caso dos pintores que lambiam a ponta do pincel ou das crianças que, em 1850, morreram após comerem doces tingidos de verde) ou através da pele. Esse contato direto com a pele era mais comum entre as mulheres, devido à verdadeira febre que os tons verde-esmeralda causaram na Europa no século XIX. Levando em consideração que em 1860 já havia várias publicações denunciando os malefícios das tinturas verdes, e outros pesquisadores tentavam continuamente modificar a fórmula original para torná-la menos mortal, é bem possível que as pessoas soubessem do que as esperava quando decoravam sua mansão com papel de parede verde. Ainda assim, os tons dessa cor eram tão populares que acabaram aparecendo até em charges na década de 1860:

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“A Valsa do Arsênico”. Revista Punch, década de 1860.

A primeira modificação à fórmula original de Scheele foi feita em 1814, por dois farmacêuticos alemães, que rebatizaram o pigmento como “verde esmeralda”. Mais barato que o verde Scheele, logo caiu nas graças da indústria têxtil inglesa e passou a ser usado indiscriminadamente no tingimento de algodão. Além disso, era usado também na produção de vidro e cristal (inclusive os de uso doméstico, criando mais uma via de envenenamento), no tingimento de couros, na fabricação de sabão, na pintura de brinquedos, para colorir fogos de artifício e até na fórmula de venenos contra rato.

 

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Papel da parede inglês, primeira metade do século XIX, usando o infame verde esmeralda. Acervo do Victoria & Albert Museum (VAM)

 

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Vestido (1860-1865) no tom verde esmeralda. A guarda desse tipo de objeto requer que o museu tome cuidados especiais de armazenamento e manuseio, para garantir a segurança dos funcionários. Acervo do VAM.

O verde esmeralda também era conhecido como “verde Paris” ou “verde Viena” e sua toxicidade só foi realmente exposta em 1822, com a publicação de sua receita. Incrivelmente, o uso desse pigmento só foi definitivamente proibido nos anos 1960.

Apesar da conhecida toxicidade dos tons de verde à base de arsênico, essas cores só caíram em desuso na decoração a partir de 1891, quando a própria Rainha Vitória, advertida por um dignatário estrangeiro, mandou remover todo o papel de parede verde do Palácio de Buckingham, no que foi seguida por seus súditos.

UMA CURIOSIDADE

As altas concentrações de arsênico detectadas nos restos de Napoleão Bonaparte podem ser atribuídas ao fato de que sua residência no exílio tinham vários cômodos com papel de parede verde.

 

FONTES:

Deadly Shade of Green

Emerald Green or Paris Green, the Deadly Regency Pigment

Drop Dead Gorgeous: A TL;DR Tale of Arsenic in Victorian Life

http://journals.ed.ac.uk/resmedica/article/viewFile/182/799

http://www.mnhs.org/preserve/conservation/reports/six_layer_sofa.pdf

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