Cores Patrióticas: como a Revolução Francesa afetou o guarda-roupa dos anos 1790


Na manhã de 14 de julho, a população de Paris marchou contra a Bastilha (uma velha prisão medieval que, embora não fosse mais um depósito de prisioneiros e sim de armas, representava o poder tirânico da monarquia francesa). Seu objetivo era tomar o arsenal da fortaleza e, principalmente, o depósito de pólvora. Por que faziam isso? Porque um certo jornalista de nome Camille Desmoulins havia espalhado que o rei se preparava para invadir Paris e dar um fim às movimentações insurgentes da Assembleia Nacional. Verdade ou boato? Nunca saberemos ao certo. Mas foi a partir desse evento, a célebre Tomada da Bastilha, que consideramos o início da Revolução Francesa propriamente dita.

“Tomada da Bastilha”, pintada por Jean-Pierre Houël em 1789. Galeria Nacional da França.

Ao invadir a prisão da Bastilha, uma guarda civil formada pelos partidários da Revolução, a Guarda Nacional, trazia em seus chapéus ou em suas lapelas uma cocarda ou roseta que combinava o vermelho (cor relacionada a Saint-Denis, padroeiro de Paris), o azul (relacionado a São Martim, símbolo do cuidado que os ricos deveriam ter com relação aos pobres) e o branco (cor símbolo da Casa de Bourbon, à qual pertencia o rei). Estava criado o esquema tricolor que até hoje identifica a França em nosso imaginário e instaurada uma revolução política não só no governo, mas na própria moda.

Ainda na abertura dos Estados Gerais, em maio de 1789, as diferenças sociais e políticas eram evidenciadas através do vestuário. De um lado, os deputados do Terceiro Estado, descritos como homens sobriamente vestidos de preto; de outro, os representantes da nobreza e do alto clero, com o luxo que caracterizava seus trajes. A sobriedade no vestir era considerada um signo de patriotismo e ardor revolucionário. A partir daqui, as cores, tecidos e acessórios se tornam um complexo código de identificação política e a primeira vítima são os trajes femininos.

Uma edição do “Journal de la Mode et du Goût” (Jornal da Moda e do Gosto) de 1790 indica às mulheres ricas o uso de “cores listradas em estilo nação”:

Um modelo destinado às “mulheres patriotas” sugeria o uso de tecido azul royal, chapéu de feltro negro e roseta tricolor:

E embora as alterações dos trajes masculinos tenham sido mais lentas e discretas, sim, elas aconteceram. Veja esse “traje patriótico”, em tecido preto com a adição de um sash tricolor:

Conforme a Revolução foi se aprofundando (e radicalizando), como na fase da Convenção Jacobina (que você deve ter estudado como o infame Regime do Terror, onde o esporte nacional da França era guilhotinar os “inimigos do povo”, ou seja, todos os que não rezavam a cartilha do Comitê de Salvação Pública), alguns itens se tornaram obrigatórios na indumentária POR LEI. Logo após a Tomada da Bastilha, a roseta tricolor foi imposto até mesmo à rainha. Mais tarde, por volta de 1792, uma outra peça chega a se tornar obrigatória para homens e mulheres, o barrete frígio:

Pela primeira vez na história Ocidental, a moda passava a ser ditada não pela nobreza, mas por aqueles a quem se chamava de Terceiro Estado: camponeses livres, trabalhadores urbanos, servos, pequenos comerciantes e a alta burguesia mercantil. Mas logo a nobreza monarquista desenvolveria seu próprio código de vestimenta…

O preto e o amarelo, cores da Casa de Habsburgo (família reinante da Áustria) e portanto de Maria Antonieta, logo foram associados aos monarquistas. O preto também possuía outro significado. Logo no começo do processo da Revolução, o herdeiro do trono, o Delfim/Dauphin, morreu. Em respeito ao luto na família real, todo o reino deveria demonstrar seus sentimentos adotando o preto, não necessariamente na roupa toda, mas em detalhes como braçadeiras, barras e golas. Com a execução do casal real em 1793, sob a acusação de traição contra o povo francês, o preto se afirmou como uma cor monarquista de vez:

Aquarela de Ann Frankland Lewis, c. 1792. Coleção Digital do LACMA

O verde, cor das armas do Conde de Artois, irmão do rei, era igualmente associada à causa monarquista:

E o púrpura, junto com o lilás, uma cor historicamente associada à realeza, seguiu ao lado dos contra-revolucionários:

POSSÍVEIS APLICAÇÕES DIDÁTICAS

Esse é um tópico dentro da Revolução Francesa que pode enriquecer a prática pedagógica da História. A análise iconográfica desdobra possibilidades riquíssimas de debate, principalmente porque o aspecto visual seduz essa geração que está nos bancos escolares agora. De posse dessas lâminas apresentadas aí em cima, e pesquisando um pouco da indumentária da nobreza, o professor pode ilustrar as diferenças entre os grupos que formavam a sociedade francesa, ao invés de simplesmente narrá-las. E, ao trabalhar com as mudanças que a Revolução traz ao guarda-roupa das pessoas, podemos debater não só o processo revolucionário, mas iniciar uma discussão sobre o papel social da moda nos dias de hoje.

A Revista Nova Escola tem uma sequência didática trabalhando a sociedade estamental a partir da análise iconográfica do período que pode servir de base para desenvolver esse trabalho. Veja aqui.

LEITURAS RECOMENDADAS

>> PERROT, Michelle (Org.). História da Vida Privada: da Revolução Francesa à Primeira Guerra Mundial. São Paulo: Companhia de Bolso.

>> Excelente postagem do blog American Duchess sobre o código de cores (em inglês): http://americanduchess.blogspot.com.br/2012/04/v94-significance-of-color-in.html

BÔNUS

Não só as roupas e chapéus, mas também os sapatos sofreram os efeitos da Revolução Francesa. Olhem essa mule de 1792, que pertence ao acervo do Museu das Artes da Moda:

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About Pauline Kisner

Historiadora, fundadora da Sociedade Histórica Destherrense e sócia proprietária na Floripa Dazantiga -Roteiros Culturais. Apaixonada pelas histórias das coisas e pessoas comuns, acredito que a História pode ser aprendida de forma leve e divertida, para além dos livros e da sala de aula.

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