Jóias de Luto e Sentimento


D. Mathilda Augusta, uma respeitável viúva dos anos 1890, nos atualiza sobre os costumes funerários, rituais de luto e o cotidiano da morte na Era Vitoriana.

Diz-se que a joalheria de luto foi um costume introduzido nos tempos da Colônia, quando então apenas os muito abastados podiam ser dar ao luxo de ostentar jóias. Foi somente no século 19, quando a indústria se desenvolveu no mundo civilizado, que tais adornos se tornaram populares, favorecidos pelo luto elegante da Rainha Vitória e sua Corte.

Se os senhores recordam minha última coluna sobre o luto das senhoras e suas fases, certamente sabem que as jóias de uma viúva deveriam refletir sua condição: o preto era cor obrigatória, fosse em azeviche, ônix ou esmalte aplicado sobre armações metálicas. Alguns joalheiros ofereciam-nos o que os senhores hoje chamariam de “jóias personalizadas”, que poderiam conter retratos dos falecidos, gravações com seus nomes, mechas de seus cabelos e – pasmem – poderiam ser feitas a partir dos cabelos daqueles que haviam nos deixado.

 

HAIRWORK

Os britânicos chamavam de hairwork a arte de transformar cabelos em intricadas jóias. Este era um trabalho muito valorizado e utilizado não apenas para as jóias de luto, mas para outros tipos de jóias. É provável que os senhores não alcancem o significado que esta matéria-prima tinha em meu tempo, então hei de lhes esclarecer. O cabelo se mantém intacto após a morte, tornando-se um símbolo da imortalidade da própria alma e dos sentimentos que guardamos pelos falecidos.

Broche de luto em base de ouro com aplicação de esmalte preto. 1854.

Contudo, nem sempre o próprio falecido contribuía com seus cabelos para tais peças. Havia um próspero comércio de cabelo humano, tanto importado quanto aquele que era comprado de mulheres pobres. Não raras vezes, era possível comprar este tipo de jóias por catálogos e solicitar à fábrica que incluísse as iniciais do falecido na peça:

Uma opção menos, digamos, extravagante consistia em reservar algumas mechas de cabelo do falecido para guardar em um relicário. A depender da habilidade do artesão empregado, belíssimos desenhos eram feitos com os fios:

JÓIAS NEGRAS

Durante as duas primeiras fases do luto, muitas mulheres tinham no azeviche a matéria ideal para seus adornos, junto com a guta percha, o ônix, a vulcanite e o esmalte. Usava-se também o azeviche francês (uma espécie de vidro tingido de preto, na verdade). A facilidade de aquisição das peças prontas através de catálogos tornou as jóias de luto (e suas imitações) muito populares:

Página de catálogo de 1885 da S.F. Myers

Desde o primeiro estágio do luto, a cor preta acompanhava a dama, aos poucos cedendo lugar a outras tonalidades. Quando em luto profundo, uma senhora de respeito usaria todas os adornos negros ou simplesmente não os usaria. Começava-se pelos alfinetes usados para prender o chapéu e o véu:

Os pentes que adornavam nossos penteados eram igualmente negros, como este magnífico exemplar em azeviche francês de 1880:

Uma forma bastante aceitável e elegante de guardar a memória dos mortos eram os anéis com retratos, que poderiam ser pintados à mão ou uma fotografia em miniatura, como esta peça que pertenceu à Rainha Vitória:

Outra peça bastante favorecida pelas senhoras elegantes eram os broches, desde os modelos mais discretos até os mais luxuosos, como este usado pela senhora Mary Todd Lincoln após o tenebroso assassinato do marido:

JÓIAS E SEUS SÍMBOLOS

D. Joaquina fez chegar aos meus ouvidos a lamentável notícia de que muitos símbolos empregados nas artes de meu tempo caíram em desuso nos dias atuais. Convém, então, que eu lhes apresente à riquíssima simbologia da joalheria oitocentista.

joias de luto

 

Os crucifixos eram particularmente favorecidos por mulheres de todas as idades e posições sociais. Simbolizava a fé cristã e a crença na imortalidade da alma e na ressureição. As pérolas, por sua vez, simbolizavam as lágrimas e eram frequentemente utilizados pelas mães como símbolos das almas dos seus pequeninos, que velavam por elas do Além.

 

 

joias de luto

 

As mãos cruzadas representavam a amizade, a fé e a cumplicidade. Também simbolizavam o amor em sua forma mais verdadeira e duradoura.

 

 

 

jóias de luto

 

Os miosótis traduziam o desejo das almas que partiam de não serem esquecidas pelos vivos.

 

 

 

jóias de luto

 

As borboletas representavam a alma que partia em direção aos Céus.

 

 

jóias de luto

 

As caveiras nos alertavam para o fato de que a morte é o fim de todos os homens, não importa sua posição ou riqueza.

 

 

 

jóias de luto

O cipreste, dizem, era uma árvore plantada junto aos túmulos para marcar a terra que não deveria ser pisada. Os antigos romanos carregavam seus galhos em sinal de respeito pelos mortos. A árvore e seus galhos simbolizam a esperança para os que ficam.

 

 

jóias de luto

As pombas simbolizavam o Espírito Santo, mas também a paz, o amor e a fidelidade.

 

 

 

 

jóias de luto

 

As folhas de samambaia simbolizavam sinceridade

 

 

 

 

joias de luto

As bolotas, este curioso fruto produzido pelo carvalho, eram muito favorecidas nos brincos, aparecendo sempre individualmente ou em trios. Delas, dizem que simbolizam a força.

 

 

 

joias de luto

 

O olho do amante, evocando as lembranças da pessoa amada que partira. Quando envolto em nuvens, simbolizava que a esperança de que o amado estivesse a zelar pela pessoa dos Céus

 

 

Outros motivos apareciam ao gosto da mulher. As tochas invertidas, que nos lembravam de como a vida é curta; as colunas partidas, que falavam das vidas interrompidas precocemente;. a combinação do crucifixo, âncora e coração, signos de fé, esperança e caridade; a serpente, simbolizando o renascimento, a imortalidade da vida e o amor eterno entre duas pessoas. Não falávamos tanto de amor aos quatro ventos como fazem nos dias de hoje, mas amávamos intensamente na vida assim como na morte – e além dela.

 


 

floripa misteriosa

Acompanhe D. Mathilda Augusta em um passeio noturno exclusivo pelo centro histórico de Floripa e descubra o lado macabro e sobrenatural da cidade.

 

Compartilhe

About D. Mathilda Augusta

"Os mortos não perturbam os vivos à toa, meus caros. O que os senhores chamam de assombração, nós chamamos de cobrar aquilo que nos é devido." Sua guia sobrenatural nos mistérios de Thanatos e nos rituais da morte. Uma profunda conhecedora dos recônditos obscuros da alma humana e das histórias que se ocultam nas ruínas e nas sombras da velha Desterro...

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *