A Crinolina Vitoriana: Mitos e Polêmicas


 

Se tem uma coisa pela qual a Era Vitoriana é conhecida é pelass suas proporções curiosas. Seja nas saias ou nas mangas, as silhuetas vitorianas possuem volumes bem característicos para cada década e peças de suporte específicas que ajudam a criar esses contornos. Hoje nós vamos falar um pouquinho sobre uma das peças mais controversas do guarda-roupa vitoriano: a crinolina. Enquanto o corset tem sido cada vez mais reabilitado na moda, ganhando versões fashion e sendo descontruído para além de um mero instrumento de tortura, a mesma coisa não acontece com a crinolina. Ela permanece no imaginário como uma monstruosidade que impedia as mulheres de se movimentarem e que frequentemente levava suas usuárias à morte das maneiras mais horrendas.

crinolina vitoriana

Esta foto é frequentemente usada para demonstrar a monstruosidade das crinolinas. Acontece que ela pertence a uma série de fotografias que satirizavam a moda através do exagero. Se a moda vitoriana parece exagerada, os jornais da época eram ainda mais. Muitos deles inventavam histórias absurdas para turbinar as vendas, numa época em que ainda não havia o conceito de “fake News”

UM TECIDO CHAMADO CRINOLINA

A palavra crinolina se referia originalmente a um tipo de tecido de algodão ou linho que recebia fios de crina de cavalo na tecelagem. O resultado era um tecido bastante rígido, que reagia muito bem à goma, e era largamente utilizado na confecção de anáguas. Foi particularmente popular na década de 1840, quando passou a ser utilizado não só nas anáguas, mas também como forro das saias. Esse é um modelo original da época:

crinolina tecido crinol

O mais próximo disso que temos hoje são as fitas de crinol usadas na chapelaria. Acervo: Metropolitano de Nova York (MetMuseum)

Mas essas saias de crinol (vamos usar esse nome para diferenciar do resto) não davam conta de armar as saias sozinhas. Aí entravam alguns truques como os bumpads (almofadinhas de bumbum, feitas com restos de tecido) e várias e várias camadas de anáguas de algodão e linho, todas engomadas. Muito engomadas.

crinolina anagua de cordao

Essa saia cheia de linhas é a anágua de cordão, uma saia de algodão com vários barbantes costurados e engomada, que também ajudava a dar forma aos vestidos. Esteve em uso pelo menos até 1860.
Acervo do MetMuseum.

A CRINOLINA DE AÇO

O que nós chamamos de crinolina era, na verdade, chamado de saia de aros em português, uma tradução bem literal de hoop skirt. O termo se refere a uma série de aros flexíveis de um tipo específico de aço, que eram moldados no formato de uma armação de saia que imitava a silhueta da época. Essa belezinha, que tornou as várias camadas de anáguas dispensáveis e deu uma aliviada no peso das roupas, apareceu pela primeira vez em 1856. A patente é francesa, atribuída a Milliet de Besançon, e, ao contrário do primeiro mito em torno da crinolina, não há evidências que comprovem que ela tenha sido criada a pedido da Imperatriz Eugênia da França.

A invenção foi um sucesso e se espalhou rapidamente pelas cortes da Europa, chegando à América com ares de coisa civilizada. A partir da original, vários inventores propuseram novos modelos, aperfeiçoados e mais leves, como essa patente americana de 1859:

Logo começaram a aparecer também crinolinas em outros tipos de materiais: barbatanas de baleia, guta percha (uma espécie de látex), borracha e até um modelo inflável, que teve vida curta e deu material para muitos chargistas e caricaturistas engraçadinhos.

crinolina charge cartum punch 1857

A revista “Punch” inglesa era particularmente ácida e implacável quando o assunto era moda. Esse cartum de 1857 é um exemplo.

Mas, no fim das contas, foi a crinolina de aço que caiu no gosto das mulheres, transformando essa peça em uma dos primeiros produtos de moda a ser produzido em larga escala industrial. E, como uma usuária assídua de crinolinas, eu consigo dizer exatamente porquê isso aconteceu: a crinolina de aço primavera é leve, flexível, fácil de guardar e faz um movimento maravilhoso quando a gente anda ou dança:

Essas crinolinas seriam uma febre na moda ocidental que atravessaria duas décadas. Nos anos 1850 elas eram redondas e vão se transformando lentamente para um formato elíptico nos anos 1860, para dar origem ao “bustle”, aquela anquinha de bumbum, nos anos 1870 e 1880.

 

“CAGE CRINOLINA” OU “ANÁGUA CRINOLINA”?

Havia dois modelos básicos de crinolina em termos de confecção:

A “saia de aros“, uma saia cortada em painéis e que recebia canaletas por onde passavam as barbatanas. É referida em algumas fontes como “anágua crinolina”:

crinoline hoop skirt civil war metmuseum

Acervo: MetMuseum

E a “cage crinoline“, que, como o próprio nome indica, lembra bastante uma gaiola de passarinho:

crinolina hoop skirt civil war

 

As diferenças entre elas são pequenas em termos de praticidade, peso ou modelagem da saia do traje. Pela minha experiência, o modelo cage tem um balanço mais charmoso, enquanto o modelo saia tem um movimento um pouco mais rígido e estável. Mas, bem confeccionadas, as duas dão o formato correto à saia e aguentam o peso do tecido.

QUAL ERA O TAMANHO DAS CRINOLINAS?

Existem várias fórmulas matemáticas para calcular o tamanho de um crinolina. Esse cálculo é feito a partir da medida da cintura e da altura da pessoa, mas também deve levar em consideração as proporções do corpo como um todo. Por isso, é

crinolina imperatriz eugenia

A Imperatriz Eugênia da França era uma grande entusiastas das crinolinas e ajudou a popularizá-las.

sempre bom recorrer às referências visuais. Observando fotos e quadros da época, podemos notar que as mulheres mais ricas, em especial nobres, utilizando crinolinas consideravelmente volumosas. No entan

to, a maioria das mulheres comuns utilizava modelos de proporções mais modestas, que não comprometiam suas tarefas diárias. Isso valia para as criadas: em muitas casas, crinolinas pequenas faziam parte dos uniformes delas.

Uma das maiores crinolinas documentadas até hoje pertence ao Museu Metropolitano de Nova York e infelizmente não está disponível para consulta, devido à sua conservação. O aro inferior, que é o maior e serve de padrão para o cálculo dos demais, tem respeitáveis 91cm de raio, ou seja, 182cm de* diâmetro e requer uma saia com cerca de cm de largura na barra. No geral, porém, as peças em coleções de museus costumam ter entre 228cm e 270cm de aro inferior, o que nos dá, em média, saias de 3.5m a 4m de largura na barra.

Para que vocês tenham uma noção: eu tenho 1,51m de altura e aquela crinolina do vídeo, que é o meu modelo de baile e a maior que eu tenho, é usada com uma saia de 4m de largura – e ela já está um pouquinho fora do padrão para o meu gosto.

 

O RETORNO DA CRINOLINA ASSASSINA

Recentemente alguns artigos sobre a “crinolinemania” foram bastante divulgados nas redes sociais e reacenderam o debate sobre a crinolina assassina. Enquanto há registros de acidentes relacionados ao uso da crinolina (principalmente nos casos em que ela ficava presa em algum lugar), o número de “mortes por crinolina” é bastante questionável. Muitos dos casos de acidentes fatais eram noticiados em jornais que já tinham por hábito inventar ou aumentar as informações para alavancar as vendas – e nada fazia pessoas comprarem mais jornais do que a notícia de uma tragédia. Mesmo nas publicações médicas, numa época em que a medicina moderna estava começando a engatinhar, há muitos dados questionáveis, que relacionam, por exemplo, o uso de crinolina a abortos espontâneos, o que realmente não faz sentido algum do ponto de vista médico.

Apesar disso, é bem possível que as crinolinas tenham criado algumas situações curiosas no início, quando os espaços domésticos precisaram ser adaptados para as novas dimensões dos vestidos. Aqui cabe lembrar que havia diferentes modelos e tamanhos de crinolina, para diferentes ocasiões: a crinolina usada em um baile não tinha as mesmas medidas da que era usada em casa ou em um passeio. O que nos leva a uma foto muito famosa na internet…

E que não faz sentido. Você viu no vídeo ali em cima que a crinolina nunca é usada sozinha, ela requer pelo menos uma anágua, que impede os aros de marcarem na saia do traje. Você consegue imaginar algum meio de tirar a crinolina no meia da rua, para embarcar na carruagem, e depois vesti-la de novo sem comprometer o tão valorizado pudor vitoriano? Fotos como essa eram encenadas e destinadas a um próspero mercado de voyeurs e colecionadores porque pornografia e erotismo já eram um segmento lucrativo na época. E a crinolina, como várias outras modas vitorianas que ocultavam as formas reais do corpo feminino, eram um prato cheio para essa indústria.

 

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About Pauline Kisner

Historiadora, fundadora da Sociedade Histórica Destherrense e sócia proprietária na Floripa Dazantiga -Roteiros Culturais. Apaixonada pelas histórias das coisas e pessoas comuns, acredito que a História pode ser aprendida de forma leve e divertida, para além dos livros e da sala de aula.

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