Etiqueta & Civilidade para a Visita Imperial


visita imperial

Com a proximidade da visita imperial de outubro, os membros da Sociedade Histórica Destherrense me pediram para que falasse um pouco aos senhores sobre a etiqueta da Corte Imperial do Brasil e as melhores maneiras de se portar diante de Suas Majestades. Nessa coluna, abordaremos o sempre atual tópico da civilidade.

Foi Jean de La Bruyére quem disse que a civilidade é a arte de usar nossas palavras e maneiras para tornar nossa companhia mais agradável aos outros e fazê-los contentes.

Isto, caríssimos, é a mais pura verdade. A civilidade é filha das virtudes que mantêm a força de uma sociedade. Ser civilizado é mais do que decorar algumas poucas regras de conduta e executá-las de forma mecânica. A verdadeira civilidade vem de uma alma bondosa e genuinamente interessada em agradar ao seu semelhante. Assemelha-se a um diamante bruto que pode ser lapidado pelas mãos gentis do artesão, até alcançar seu máximo esplendor entre outras jóias de elevado valor.

Enquanto a Província de Santa Catarina se prepara para receber a visita gloriosa de Suas Majestades Imperiais no mês de Outubro, nós catarinenses também o fazemos. Senhoras e cavalheiros já encomendaram seus trajes de nobreza e cerimônia para apresentar-se diante do Imperador. Como meus serviços têm sido muito requisitados por meus conterrâneos, atendi ao convite da Sociedade Histórica Destherrense para preparar os senhores para a visita imperial. Hoje trataremos da etiqueta da Corte e como usá-la para causar boa impressão em Suas Majestades.

Para tornar nossa pequena aula mais agradável, estou respondendo a algumas questões de maior relevância, apontadas pelos membros desta nobre Sociedade:

SHD- Como devo me aproximar do Imperador?

Sua Majestade não é muito dado às pompas da Corte, mas a visita é uma ocasião formal e é preciso atentar para algumas regras:

Ao entrar na sala onde estiverem os Imperadores, deve-se fazer três mesuras: na entrada, a dez passos e a três passos de distância dele.

Não fique a menos de três passos de distância de Suas Majestades. Próximo deles, deve-se conservar a cabeça levantada e uma postura elegante, mas sem exageros. Não fale alto, nem baixo; lembre-se de articular bem as palavras. Deve-se evitar olhar durante muito tempo para os Imperadores, pois isso pode soar como um desafio ou insolência.

Não beije a mão dos Imperadores a menos que Eles ofereçam a mão ou você esteja da cerimônia do Beija-Mãos.

 

visita imperial

Dom João VI de Portugal, pai de Dom Pedro I do Brasil e avô de Sua Majestade D. Pedro II

SHD- O que é um “Beija-Mãos”, D. Joaquina?

Este é um costume muito antigo, trazido de Portugal por D. João VI lá em 1808. É uma cerimônia de grande pompa, na qual temos a honra de beijar uma das mãos de nossos soberanos.

Esta honra é concedida a poucas pessoas, que podem, inclusive, aproveitar a proximidade com Sua Majestade para causar uma boa impressão . Impressionar a realeza, os senhores sabem, é de suma importância. Quem tem bons amigos na Corte, e na nobreza como um todo, nunca estará em apuros.

 

SHD – Como é feita esta cerimônia?

É uma cerimônia belíssima!
Sua Majestade fica sentado em um belo trono ornamentado e os nobres da Corte formam filas nos dois lados da sala. Cada pessoa que entra é anunciada pelos seus nomes e títulos e deve caminhar pausadamente por este corredor de nobres. Chegando ao trono, fazemos uma reverência suave ao Imperador, colocamos o joelho direito no chão e beijamos a mão imperial. De pé, fazemos outra reverência ao Imperador e saímos pelo lado direito da sala. A quatro ou cinco passos de distância, viramo-nos novamente para o Imperador e fazemos outra reverência suave. A terceira reverência é feita na porta, antes de deixar a sala.

 

beijamao visita imperial

Registro de Jean-Baptiste Debret acerca do Beija-mãos na Corte de D. João VI no Rio de Janeiro

 

SHD – Somente o Imperador faz o Beija-Mãos?

Oh não, senhores! A Imperatriz e os príncipes, se os houver, também concedem esta honra.

Na visita de outubro, certamente a Imperatriz também estará presente à cerimônia. Nesse caso, deve-se beijar primeiro a mão do Imperador, e depois a da Imperatriz.

 

SHD – E esta reverência, é aquela em que se faz volteios com um lenço de renda na mão?

Ah, isso são modos de outros tempos senhores. Esta afetação de trejeitos não cabe mais no século XIX!

Uma boa reverência é feita mantendo-se os pés próximos e curvando apenas o tronco e a cabeça em direção à pessoa que se saúda. Os senhores devem trazer a cabeça descoberta, carregando o chapéu sob o braço esquerdo. O braço direito pode permanecer levemente cruzado sobre a frente do tronco.

No caso das senhoritas, é elegante levar o pé direito atrás da perna esquerda, antes de dobrar os joelhos. Diante de uma figura de grande autoridade como Sua Majestade, é aceitável olhar brevemente para o chão no momento da reverência, em sinal de respeito.

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A Coroação de Dom Pedro II em 1841, em tela do Barão de Santo Ângelo.

SHD – Como devemos nos referir aos Imperadores?

Quando falar diretamente aos Imperadores, deve-se usar “Vossa Majestade” e jamais “tu” ou “você”, mas “vós” ou “senhora/senhora”.

Quando estiver se referindo aos Imperadores, mas não falando com eles, deve-se usar “Sua Majestade”.

Usar corretamente os tratamentos às pessoas da realeza é um sinônimo de excelente educação.

SHD – Como devo me vestir para a visita imperial?

Para toda a gente nobre ou bem colocada na sociedade, o traje de cerimônia é obrigatório e feito em seda de qualidade. Muitas famílias abastadas de nossa região têm se visto em maus lençóis para atender a esta regra. Há muito tempo não se tinha ocasião tão solene por estas terras e os mercadores de panos e modistas aproveitaram a oportunidade para fazer subir seus preços!

Sua Majestade o Imperador é, ele próprio, um homem pouco afeito às pompas de Corte. Ele costuma circular pelo Rio de Janeiro vestindo casaca, calças longas e cartola, como um simples comerciante ou funcionário público. Acredito que isso poderá trazer um certo relaxamento das regras estritas da Corte. E sendo um homem culto e progressista como é, Sua Majestade não deixará de acenar a quem quer que seja pela falta de alguns metros de seda nas roupas!

moda vitoriana visita imperial 1840

As modistas de Desterro dispõem de inúmeras magazines com as modas elegantes de Paris ou Londres. Escolha o estilo que mais agradar aos seus olhos e prepara-se para a visita de Suas Majestades.

SHD – Teremos oportunidade ver os Imperadores?

Certamente!
Suas Majestades visitarão não só Desterro, mas também várias freguesias da Ilha de Santa Catarina, a vizinha São José da Terra Firme e as Caldas de Cubatão. Sua Majestade a Imperatriz manifestou grande desejo de conhecer as propriedades das águas termais catarinenses.
A chegada da Esquadra Imperial está prevista para a manhã de 11 de outubro, com desembarque no Porto de Desterro, se o vento sul assim o permitir!

 

REFERÊNCIAS

Código do Bom-Tom (1845)

Novo Manual do Bom-Tom (1859)

OUTUBRO IMPERIAL

O Outubro Imperial é uma iniciativa da Sociedade Histórica Destherrense, em parceria com a Floripa Dazantiga Roteiros Culturais, para comemorar os 172 anos da visita imperial de 1845. Será um mês completo de atividades no centro de Florianópolis, no centro histórico de São José e na Freguesia de Santo Antônio de Lisboa, com roteiros históricos, cortejo imperial, piquenique, oficina de danças históricas e atendimento às escolas da região. Confira a programação:

 

07/10 Roteiro “Floripa Imperial”, às 14h

08/10Cortejo Imperial e Convescote Imperial em São José

20/10 – Evento Cultural Surpresa

21/10 – Lançamento do roteiro “Santo Antônio Imperial”

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About D. Joaquina Brião

"A boa educação é resultado do bom senso, do bom caráter e da abnegação em favor do seu semelhante." (Barão de Chesterfield) Uma mulher bem-nascida e bem-criada, com uma posição de respeito dentre os desterrenses. Sua interlocutora junto aos usos e costumes do Oitocento e da vida em Desterro naquele século.

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