Storytelling na Educação


Cada vez mais há uma expectativa da sociedade de que os professores incorporem as novas e excitantes Tecnologias de Informação e Comunicação nas salas de aula. A falta de mecanismos que tornem as aulas interessantes, capazes de despertar o interesse dos alunos, é frequentemente apontada como um dos fatores pelo qual o desempenho dos alunos se encontra abaixo do esperado. A verdade é que a incorporação das TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação) no ensino também não garante, por si só, uma melhoria no quadro geral de desempenho. Embora o discurso de “tecnologia de ponta + material interativo = futuro” seja sedutor e comercialmente traga resultados, às vezes precisamos olhar um pouco para o passado e reavivar certas práticas que foram abandonadas ao longo do tempo.

Pense por um instante nos seus anos escolares. Quais são os momentos que vêm à sua memória? No meu caso, lembro de um professor de Biologia do 1º ano do Ensino Médio que, vendo que a turma estava perdendo o foco enquanto ele explicava o sistema circulatório, começou a passear entre as fileiras, pedindo a nós que visualizássemos as células do sangue passando pelos vasos. Quando professor tropeçou no pé de um dos alunos, rapidamente se refez dizendo que aquilo era uma placa de ateroma  e aproveitou para explicar o que era a placa e os riscos que ela oferecia à saúde. Esta história tem 15 anos e ainda está vívida na memória. Eu poderia citar vários outros exemplos de professores meus que transformaram os seus conteúdos em narrativas, algumas vezes épica, outras vezes humorística, mas à esta altura você mesmo já deve ter lembrado de momentos parecidos ao longo dos seus anos escolares.

O que o meu professor de Biologia fez lá no idos de 2000 tem nome: “storytelling”.Em bom português,  é a arte de criar e contar uma história que prenda a atenção do público e transmita uma mensagem duradoura. E isto não é uma novidade pós-moderna: é exatamente o que várias gerações fizeram ao longo da história da humanidade para transmitir todo tipo de conhecimento e ensinamento moral. O storytelling pode ser feito através de diferentes mídias, mas, em sua raiz, ele é uma prática social e essencialmente oral – e uma ferramenta poderosa se colocada a serviço da educação.

 

“Conte-me um fato e eu aprenderei. Conte-me a verdade e eu acreditarei. Mas conte-me uma história e ela viverá para sempre em meu coração.” (provérbio indígena norte-americano) 

 

Uma história é uma narrativa que desperta interesse, ou porque apresenta o exótico, ou porque traz algum elemento com o qual o ouvinte se relaciona diretamente. Na escola em que trabalho atualmente, pude fazer a experiência de trabalhar o mesmo conteúdo com três turmas e usando abordagens diferentes. As turmas nas quais utilizei o storytelling apresentaram um desempenho muito superior às outras nas avaliações, porque a assimilação da informação foi facilitada pelo formato em que o conteúdo foi apresentado.

Um storytelling de sucesso é planejado em detalhes que vão do cenário aos personagens, pensando suas conexões com o conteúdo apresentado, os recursos visuais e táteis que podem ser empregados, os “ganchos” que são criados dentro da narrativa, o estímulo à interação dos ouvintes entre si (muitas vezes atribuindo papéis a eles na história e perguntando qual decisão tomariam em uma dada situação), a expressão corporal do narrador e suas variações de voz ao longo da narrativa. Um retorno a práticas ancestrais com um quê de inovação educacional.

Confira 10 dicas fundamentais para criar um storytelling de sucesso

 

1. Somente o necessário

Mantenha-se focado em um tema específico. Se você está falando sobre o funcionamento das cadeias e redes alimentares, não traga informações fora do tema, por mais que elas estejam conectadas ao tema principal. Informações extra são desvios de foco que diminuem a assimilação de conteúdo.

 

2. Crie um cenário

Situe seu aluno em um determinado cenário. Utilize elementos descritivos para que eles possam visualizar este cenário.

 

3. Não oculte o indesejável

Especialmente nos conteúdos de História, a informação a ser apresentada pode ser um pouco indigesta. Não deixe de tratar de temas mais delicados, apenas adapte-os à faixa etária. Muitas vezes, estes “detalhes sórdidos” são os que mais prendem a atenção e servem como gatilhos de memória.

 

4. Crie personagens com os quais os alunos possam se identificar de alguma forma

Nos meus storytellings, eu gosto bastante de levar para a sala personagens fictícios que estejam inseridos no contexto do tema que quero tratar. Esses personagens são compostos previamente e ganham nome, características físicas e psicológicas, o que ajuda o aluno a focar melhor naquele momento. Os personagens costumam ter a mesma faixa etária da turma à qual estiver sendo apresentado o storytelling. Sempre começo apresentando o personagem, situando-o no tempo e espaço, e apresentando essas características.

storytelling cordel shdnaescola

Contar histórias é a uma das práticas sociais mais antigas da humanidade, unindo as gerações para transmissão de valores éticos e morais e memória coletiva. Um dos fatores mais importantes do storytelling é contar histórias e personagens com os quais os ouvintes se identifiquem em um certo nível. 

 

5. Distribua papeis

Dê aos alunos papéis no seu cenário quando houver dinâmicas mais complexas a serem explicadas. Faça com que eles interajam dentro dos seus personagens.

 

 6. Proponha (e resolva) problemas

O storytelling deve servir para responder perguntas e resolver problemas que poderiam ser facilmente ignorados apenas com a exposição tradicional. Uma boa maneira de fazer isto é iniciar com uma frase ou pergunta que sirva de ponto de partida para a narrativa.

 

7. Linguagem corporal

Movimente-se. Faça gestos. Aplique dinâmica no tom da voz. Mude a voz para incorporar determinados personagens ou situações. Mantenha contato visual, especialmente com aqueles alunos que tendem a se dispersar mais facilmente. Use e abuse das pausas dramáticas. Todos estes recursos prendem a atenção dos ouvintes e as variações tonais e pausas servem para recuperar aqueles que estão se dispersando.

8. Acione os sentidos dos alunos

Seja através da descrição de situações  ou levando elementos, estimule os diferentes sentidos dos alunos. Isso melhora a retenção da informação.

Utilize sons, cheiros, texturas e sabores. Muitas vezes a simples menção a um determinado cheiro ou textura é suficiente para acionar a memória sensorial e criar um gancho na memória.

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Uma boa história mantém nossa atenção e permanece na nossa memória por muito mais tempo.

8. Conecte sua história à vida real

Se você está trabalhando com conceitos muito abstratos, traga exemplos da vida real para que os alunos possam: a)traçar paralelos com a sua própria vivência; b)ver os conceitos funcionando na prática.

 

9. Faça-os recontar a história

Peça aos alunos que recontem a história para você, relacionando-a ao conteúdo estudado, em qualquer forma de registro que você considere adequada à turma.

 

10. Planejamento

Um bom storytelling não é feito de improviso, embora com a prática ele até possa passar tal impressão. Comece sua narrativa sabendo como ela vai terminar, quais são os personagens, quais são as ações e problemas e, principalmente, quais são os conceitos fundamentais que você precisa que seus alunos assimilem.


About S.H. Destherrense

Somos um grupo de reconstrução histórica com sede em Florianópoolis-SC e vamos levar você em uma viagem no tempo pela nossa história.