Fontes Históricas na Sala de Aula


fontes históricas na sala de aula

Pense comigo por um minuto: daqui a 100 anos, o que os historiadores do futuro usarão para contar a história do momento que estamos vivendo agora?

Que pistas nós estamos deixando HOJE sobre a nossa passagem no mundo?

 

Costumo dizer aos meus alunos que fontes históricas são as pistas que os seres humanos foram deixando de si mesmos ao longo do tempo, que são achadas e interpretadas pelos historiadores. Algumas dessas pistas podem ser produzidas intencionalmente; pense em um documento emitido pelo governo, como o Diário Oficial, que já é pensado para ser utilizado como fonte de consulta e informações no futuro. Outras pistas são produzidas totalmente sem intenção de serem pistas; pense nos cadernos de receitas que passam na família ou em uma peça de roupa.

Desde quando os seres humanos começaram a produzir as primeiras ferramentas (aproximadamente 2.5 milhões de anos atrás), nossa espécie vem deixando inúmeras pistas da sua existência no mundo. Quando essas pistas são utilizadas pelos historiadores para ajudar a entender um determinado momento da história da humanidade, elas se tornam fontes históricas. Nós costumamos dividir as fontes históricas em dois tipos:

Fontes primárias: são as “pistas” produzidas originalmente na época em que estamos pesquisando. Exemplo: o relato do desembarque da Família Real Portuguesa no Brasil, em 1808, escrito na época em que isso aconteceu.

Fontes secundárias: são as pesquisas produzidas pelos historiadores, a partir da análise de várias fontes primárias. Exemplo: o livro de um historiador dos dias atuais sobre a Transferência da Corte Portuguesa, escrito a partir da pesquisa em vários documentos da época.

storni cabresto 1927 fontes historicas

Em 1927, o chargista e cartunista gaúcho Alfredo Storni publicou essa charge sobre o momento político que o Brasil vivia. Como uma fonte desse tipo pode ajudar seu aluno a visualizar esse contexto da República do Café-Com-Leite?

E JÁ QUE FALAMOS EM DOCUMENTO…

Hoje em dia, os termos “documento histórico” e “fonte histórica” são sinônimos. Até relativamente pouco tempo atrás, os historiadores acreditavam que a História-Ciência deveria apenas narrar os fatos e privilegiar acontecimentos políticos, militares e econômicos importantes para o país. Essa foi a forma de pensamento historiográfico típica do século 19. Esses historiadores, chamados de positivistas, utilizavam quase que apenas documentos oficiais, emitidos pelo governo, considerados os únicos documentos “verdadeiros” e “corretos”, ou seja, os únicos documentos históricos. Os historiadores de hoje já não acreditam nisso. Na verdade, hoje nós entendemos que quase tudo produzido pelo ser humano pode ser tornar uma fonte histórica, desde que ela possa ser utilizada para melhorar nossa compreensão sobre o passado.

 

QUAIS SÃO OS TIPOS DE FONTES HISTÓRICAS?

Nem todas as fontes históricas são iguais e, à medida em que novas fontes vão sendo exploradas, precisamos organizá-las de alguma maneira. Essa classificação das fontes históricas serve para nos ajudar a pensar em como lidar com cada uma delas. Um quadro não pode ser estudado da mesma maneira que uma carta, certo? Então cada tipo de fonte histórica tem métodos diferentes para ser analisada.

Fontes Escritas – documentos escritos à mão ou digitados, no papel ou digitalizados. Exemplo: cartas, diários pessoais, certidão de nascimento, relatos de viagem.

Fontes orais – falas pessoais arquivadas em áudio. Exemplo: entrevista com uma pessoa que viveu um determinado momento histórico, um discurso transmitido pelo rádio.

Fontes iconográficas ou imagéticas – documentos puramente visuais, em que o texto, se existir, é muito menos importante do que a imagem. Exemplo: quadros, desenhos, charges, caricaturas, fotografias.

Fontes audiovisuais – são as que se apresentam em vídeo. Exemplo: entrevistas, depoimentos, filmagens da época.

Fontes materiais – são objetos de outras épocas, que nos ajudam a entender os hábitos do passado. Exemplo: objetos de uso pessoal, ferramentas, objetos de decoração. Os objetos por si só podem se transformar numa aula de História, como já falamos nesse artigo.

A classificação das fontes históricas pode ser muito mais extensa, dependendo do autor. Essa divisão que apresentamos aqui é apenas uma abordagem inicial, que pode ser utilizada para introduzir os alunos ao tema.

 

COMO TRABALHAR COM AS FONTES HISTÓRICAS?

É muito importante que as crianças conheçam variadas fontes históricas para perceber que o livro-texto/livro-didático é resultado de uma pesquisa. E pesquisar significa fazer recortes, escolher privilegiar algumas coisas em detrimento de outras, selecionar fontes de onde tirar a informação. Tão importante quanto saber história é saber como fazer História. E aqui cabe diferenciarmos a ideia de história, que se refere ao passado de forma geral, e História, que é um campo do conhecimento com métodos próprios, que busca entender a ação humana ao longo do tempo e sua relação com o momento que vivemos hoje.

Para isso, os historiadores se apoiam na análise das fontes históricas dentro do contexto em que elas foram produzidas, buscando identificar a intencionalidade de seus autores, aquilo que é dito e, principalmente o que é deixado de fora dessa fonte. Muito importante: um bom trabalho historiográfico se apoia em múltiplas fontes, inclusive contraditórias entre si. É um trabalho bastante complexo, que pode e deve ser progressivamente apresentado aos alunos ao longo dos anos de escola.

Embora nossos alunos das Séries Iniciais (ainda) não precisem aprender a fazer essa análise de uma forma tão elaborada, você pode fazer uma atividade simples para eles terem uma ideia de como funciona o trabalho com as fontes históricas.

fontes historicas sala de aula

Ao trabalhar com fontes visuais, como pinturas e fotografias, oriente a turma para encontrar personagens e descrever sua aparência e ações.

 

TRABALHANDO FONTES PRIMÁRIAS: UMA SUGESTÃO DE ATIVIDADE COM A TURMA

Selecione uma fonte histórica dentro do conteúdo que você estiver trabalhando no momento. Pode ser uma fonte que já conste no livro/apostila em uso ou que seja retirada da biblioteca ou de um acervo digital (confira nossas sugestões no fim do artigo). É importante que todos os alunos tenham acesso livre à fonte durante a atividade. Também é interessante que eles se organizem em duplas, para discutir suas observações.

Se você estiver trabalhando com uma fonte imagética, como um quadro, incluir lupas na atividade pode ser uma maneira de deixá-la mais provocativa. Brinque com a turma dizendo que eles farão o trabalho de verdadeiros detetives da história.

Uma vez que a turma estiver organizada e de posse da fonte, peça aos alunos que respondam às seguintes perguntas:

1) Que tipo de fonte está sendo trabalhada?

2) A fonte tem um título? Qual?

3) Quando e onde essa fonte foi produzida?

4) Onde ela está armazenada? (É importante pesquisar o repositório, caso não esteja explícito. Produza uma legenda para acompanhar a imagem ou texto, se for o caso)

5) Quem produziu a fonte? 

6) Na sua opinião, qual seria o objetivo do autor ao produzir essa fonte?

7) Quais informações são apresentadas na fonte? (Explore com eles os personagens, as ações descritas, as determinações)

8) Como essa fonte pode nos ajudar a entender melhor o período histórico que estamos estudando? (Explore as transformações e permanências)

Depois que a turma fizer os apontamentos no caderno de registros, inicie a socialização das observações. Comece apresentando alguns dados biográficos básicos do autor  e o contexto da fonte, explicando que é muito importante entender a fonte histórica no contexto em que ela foi feita; pergunte à turma se a fonte que está sendo trabalhada faria sentido nos dias de hoje ou se seria possível entendê-la sem saber em que contexto ela foi produzida.

É muito importante que os alunos compartilhem oralmente suas observações, pois eles perceberão coisas diferentes na fonte e farão inferências diferentes. Explore essas diferenças e aproveite para explicar como as fontes históricas podem ser interpretadas de diferentes maneiras, mas reforçando a questão do contexto, que é um ponto fundamental. Ao final da atividade, você pedir aos alunos que contribuam com exemplos de outras fontes históricas que poderiam ser usadas para ampliar o conhecimento sobre a história do Brasil ou encaminhar uma atividade sobre o assunto para casa.

 

FONTES HISTÓRICAS EM ACERVOS DIGITAIS

Arquivo Nacional  de História Colonial – possui várias fontes históricas referentes ao período da Colônia (1500-1808), organizadas por temas e com notas de contextualização para auxiliar os pesquisadores/professores.

Brasiliana Fotográfica o maior acervo digital de fotografias históricas do Brasil.

Comissão Nacional da Verdade – com várias fontes referentes ao período da Ditadura Militar (1964-1985)

Biblioteca Nacional – possui acervos digitalizados divididos em cartografia histórica, manuscritos, registros sonoros, etc.

Banco de Conteúdos Culturais – acervo riquíssimo de fontes imagéticas e audiovisuais. Possui filmes antigos, reportagens e áudios de rádio brasileiros.

 

Já trabalha com as fontes históricas em sala? Conte para nós sua experiência!


About Pauline Kisner

Historiadora, fundadora da Sociedade Histórica Destherrense e sócia proprietária na Floripa Dazantiga -Roteiros Culturais. Apaixonada pelas histórias das coisas e pessoas comuns, acredito que a História pode ser aprendida de forma leve e divertida, para além dos livros e da sala de aula.